C64 ASSY 250407 shows random Colors on Startup


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I'm attempting to repair a C64 ASSY 250407 that displays random colors on startup.

Collected C64 Repair Resources:
janbeta.net/c64repair.html

TIME STAMPS:
0:00 Introduction
1:32 A Look at the Board
6:12 Symptoms
9:18 Checking Voltages
10:29 Wonky Power Switch?
15:46 Bad VIC-II?
16:47 Checking more Voltages
18:00 Bad MOS Logic Chips?
22:52 Probing Adress Lines
25:39 PLA Fault?
27:51 Low Volume Sound
32:47 CIA Fault?
34:33 What was broken (so far)?
35:29 Thank you & Good night

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MUSIC by FOCUS 10 focus10music.bandcamp.com

MERCHANDISE: janbeta.creator-spring.com
MASTODON: social.janbeta.net
PATREON: patreon.com/janbeta
KO-FI: ko-fi.com/janbeta
WEBSITE: janbeta.net
TWITCH: twitch.tv/thejanbeta

YT CHANNEL MEMBERSHIP: youtube.com/channel/UCftUpOO4h…

Thanks for watching!

#JanBeta #Commodore #Commodore64 #C64 #Repair #Troubleshooting #BlankScreen #ColorfulScreen #PLA #CIA #VIC #RetroComputing #VintageComputing

This entry was edited (today, 8:31 AM)

Boy George pulled from West End performance run after releasing pro-Israel song


Boy George has been pulled off a West End performance days before he was set to take the stage as his manager scrambles to minimise backlash to a pro-Israel song.

Earlier this week the former Culture Club frontman released "We Will Dance Again", which featured the opening line "you say genocide, I said war, when you're attacked, that's what the army is for".

He goes on to describe Israel's assault as having got "ugly", before saying that it has done so because he "knows you want to kill every last one of us," referring to Jewish people living in Israel.

The release led to fierce backlash against the English singer. His manager, Paul Kemsley, has now released statement saying he has made the decision to pull Boy George from a scheduled run in Andrew Llyod Weber's Jesus Christ Superstar.

He was set to play King Herod – a one-song cameo role that’s being rotated – from August 3 to 15.

in reply to geneva_convenience

I dont know the song but picking a side in that matter seems to come with bad consequences. This has been like that for decades already.

Both sides handle things wrong but since oct 7 i kind of understand israel. Flotilla activists et. al completely forget that and that hamas was iran financed which literally swore to make jews extinct.

in reply to Waterpumpee

Hamas was also financed by Israel in order to sink the efforts of the PLO. The secular PLO looked like it might actually get some peaceful recognition of statehood and Israel knew a violent Islamist leadership would torpedo that. Israel has been fighting against Palestinian statehood, limiting movement of Palestinians, controlling resources, supporting "settler" bandits that colonize and kill Palestinians, etc.

Israel has been slowly taking over Palestinian land and killing their people for decades. The Palestinians can't vote in Israeli elections. Their statehood has been blocked by Israel so they have limited diplomatic solutions. What peaceful option do you propose they should have done?

The Oct 7 attacks killed about 1200 Israeli civilians and soldiers. In response, Israel has killed 1200 Hamas militants and 82,000 civilians, wounded a further 174,000, blocked humanitarian aid, leveled apartments, hospitals, schools, etc. Acting like both sides are bad when one is fighting for survival, and the other is committing a genocide is just arguing in support of genocide. If you're somehow still ignorant on this topic, I suggest you do some more digging into the history of Israel and Palestine. If you have learned about it and still support Israel then go fuck yourself.

No Spoilers 👁️⃤


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This entry was edited (Monday, August 3, 2026, 5:00 PM)
in reply to diffaldo

Well, I was in the third grade when 9/11 happened, and there was never any kind of formal education about it, because we had all just experienced it. Kids just a few years younger than me wouldn't remember it at all, but likely still wouldn't have learned about it in school yet. That's probably where this guy falls
This entry was edited (Tuesday, August 4, 2026, 2:47 PM)
in reply to MnemonicBump

I had to do a bunch of my own learning about the gulf war. Similarly, it happened before I was born but recent enough that history teachers didn't consider it history. I now think it set the stage for a lot of the US geopolitically and I really should've learned about it in school.

Welcome To The Resistance: Meet The Workers Dodging (And Sabotaging) Their Employer's AI Mandates


in reply to chobeat

One of my friends is a software engineer. Her first job out of college was doing a bunch of data stuff to build an LLM. She made the data processing and export take months and obfuscated every attempt to fix the problem until they took her off the project. My hero.

Introdução a conceitos de justiça social, em formato de perguntas e respostas


Este texto não está tão completo quanto eu queria, porém não tenho ideias do que mais adicionar nele sem ficar muito redundante em relação a este aqui. Prefiro não deixar este rascunho aqui para sempre, então resolvi publicá-lo como está. Espero que ainda seja útil.


Aviso de conteúdo: Por conta do assunto a ser discutido, haverão inevitavelmente descrições de opressão, discriminação e violência contra grupos marginalizados.

Eu vou ir explicando o que estas coisas significam aos poucos, mas, se você quiser adiantar para descobrir o significado de certos termos, você pode pesquisar por eles aqui.


Conceitos

O que é justiça social?


Lutar por justiça social significa lutar para que todas as pessoas tenham acesso a saúde, educação, cultura, moradia, justiça e outros direitos e deveres básicos para viver bem. Ou seja, justiça social por si só seria o acesso universal a essas condições.

Em geral, pessoas que lutam por justiça social reconhecem que ela só será atingida combatendo injustiças baseadas em identidades, e esta noção é chamada de política identitária ou de política da identidade.

O que é política identitária / política da identidade?


É o reconhecimento de que grupos específicos possuem interesses e problemas específicos àqueles grupos. É um modelo simplificado que ajuda a entender o sofrimento e o privilégio de cada pessoa por meio da comparação da sua situação com a situação de pessoas com as mesmas identidades.

Por exemplo, mulheres no Brasil, em geral, ganham consideravelmente menos do que homens. Segundo o conceito de política de identidade, este fato não deve ser visto como uma coincidência, e/ou como consequência de falhas individuais, e sim como um sinal de que há fatores sociais que levam a esta situação.

Alguém usando política identitária com o objetivo de lutar pela justiça social pode querer explorar os motivos pelos quais mulheres têm menos chances de terem salários maiores, como por exemplo:

  • Uma sociedade que divulga e repete a ideia de que "boas" mulheres não deveriam ser ambiciosas, o que as condiciona a se contentarem com salários menores do que homens;
  • Uma sociedade que divulga e repete a ideia de que mulheres são menos capazes de fazer trabalhos que dão mais dinheiro, o que impede sua contratação em empregos que pagam mais;
  • Uma sociedade que divulga e repete a ideia de que "boas" mulheres não devem ganhar mais do que seus maridos, o que as incentiva a ter empregos que pagam menos;
  • Uma sociedade que divulga e repete a ideia de que "boas" mulheres precisam cuidar da casa, de sues filhes e da aparência, enquanto homens não, o que causa uma perda de tempo e cansaço maior para mulheres do que para homens e prejudica a procura por um emprego e a estabilidade em tal emprego. Esta ideia também incentiva pessoas a pagarem menos por trabalhos como cuidar de crianças e limpar a casa, já que são coisas que mulheres "deveriam fazer de graça".

Já alguém usando política identitária com o objetivo de lutar contra justiça social pode querer argumentar que a culpa é das próprias mulheres por serem menos ambiciosas, mais preguiçosas, menos capazes ou menos adequadas para o mercado de trabalho. Muitas vezes, podem até dizer que isso é por conta de biologia, como se essas questões fossem genéticas ao invés de sociais (um argumento que também é diadista e cissexista, já que ser mulher não depende de biologia).

De qualquer forma, usar política identitária não significa ignorar completamente questões pessoais. Política identitária é uma abstração que permite ver certos padrões para certos grupos, e não um modelo que prevê a vida pessoal de cada pessoa.

Por exemplo, se uma pessoa diz que mulheres ganham menos do que homens por conta de fatores sociais, isso não significa que a pessoa não acredita que algumas mulheres possam ganhar a mesma coisa ou mais do que a maioria dos homens. Também não significa que a pessoa não acredita na existência de homens que possuem salários baixos.

O que é privilégio e opressão, no contexto de política identitária?


Opressão é a existência de uma força social (ou seja, que não é individual) que prejudica certos grupos de pessoas (grupos que chamamos de marginalizados ou minorizados).

Esta força social muitas vezes é explicada pela questão de leis que explicitamente prejudicam grupos (como leis que proíbem certas crenças ou certos tipos de relacionamentos), mas ela não é necessariamente dependente da lei ou baseada somente nela.

Tal força pode ser uma consequência do tratamento de certos grupos no passado; pode ser uma consequência de oferecer benefícios que não chegam a certos grupos marginalizados; pode ser uma consequência de medos que geram preconceitos que passam a ser incentivados por parte da população e da mídia; entre uma série de outras coisas.

Privilégio não tem necessariamente a ver com receber vantagens explícitas, mas também tem a ver com não ter que passar pelo que um grupo marginalizado passa (ou, ao menos, não passar por isso por conta de ser daquele grupo).

Grupos privilegiados podem nem ter contato com a opressão que grupos marginalizados naquele eixo passam, porque é comum que esse tipo de coisa seja escondida ou vista como normal. Podem também não acreditar em pessoas marginalizadas que falam sobre o quanto são marginalizadas, porque são condicionadas a verem tais pessoas marginalizadas como menos confiáveis para falar de suas próprias experiências, ou como merecedoras de tal marginalização.

Se opressão é algo sendo forçado por um sistema, por que existe pressão para que pessoas individualmente parem de usar certas palavras, apoiar certos projetos, pagar mal sues empregades, ignorar certas causas, etc.?


Obviamente o ideal seria destruir esse sistema e construir maneiras de viver menos opressivas. Porém, estamos muito longe disso, então mudanças incrementais implementadas mais cedo podem ajudar grupos marginalizados de forma mais imediata. Alguns exemplos são:

  1. Existem pessoas que possuem poder para efetuar mudanças. Se for possível que, por exemplo, mais postos de saúde sejam construídos por conta de convencer representantes do governo a fazer isso, isso gera um aumento na qualidade de vida de certas pessoas mesmo que poucas pessoas tenham sido convencidas de que algo deveria ser feito.
  2. Coisas vividas no dia-a-dia, como ser xingade na rua, não conseguir moradia ou trabalho por pertencer a certo grupo, não conseguir fazer terapia porque não há especialistas na área que entendem a situação, não conseguir manter amizades por ser "muito fora do comum" e afins, podem diminuir quando esforços são feitos para conscientizar pessoas de que discriminar é errado (desde que tais esforços prestem). Essas coisas pesam, mesmo as que são possíveis de ignorar se acontecessem só uma vez ou outra.
  3. Esforços que conscientizam grandes partes da população sobre os problemas enfrentados por certos grupos incentiva a ter mais pessoas a ajudar nestas causas, ou ao menos a não atrapalhá-las. Isso ajuda nos outros dois itens.

Além disso, para muitas pessoas, não vai adiantar destruir o sistema capitalista e estatal e viver em pequenas comunidades se estas comunidades ainda vão perpetuar uma série de opressões que nunca foram questionadas. Portanto, esforços que focam em pessoas sem poder de mudar o sistema são úteis mesmo que o sistema caia.

O que é um eixo de opressão?


Quando falamos da posição de mulheres e de homens, estamos falando do eixo de gênero.

Algumas pessoas colocam o modelo do eixo como uma linha reta entre o grupo privilegiado (no caso de gênero, homens) e os grupos que não são privilegiados em outros pontos da linha (como pessoas não-binárias no meio e mulheres no fim).

Porém, eu acredito que, para a maioria das marginalizações, uma linha só não é adequada. Por exemplo, no caso de gênero, pessoas não-binárias podem ter uma linha diferente da de mulheres, por sofrerem coisas diferentes por suas identidades de gênero, mesmo que não internalizem misoginia.

Gênero é uma questão mais complexa que isso, porque pessoas não-binárias podem também ser mulheres ou homens ou ter alguma relação complexa com misoginia e/ou privilégio de homem.

Meu ponto é só que praticamente qualquer eixo que não existe num binário aonde só há um grupo privilegiado e um grupo oprimido vai ter grupos oprimidos que sofrem tipos de opressão diferentes, mesmo que todos tenham em comum o fato de não pertencerem ao grupo privilegiado.

Essas teorias sobre privilégio e opressão com base em grupos também levam em consideração quando a opressão é por mais de uma coisa?


Sim!

Dentro do movimento feminista negro, foram cunhados os termos intersecção e interseccionalidade para descrever que não só é impossível para mulheres negras separar a opressão que sofrem como mulheres da opressão que sofrem como pessoas negras, como também que há coisas que só são sofridas por mulheres negras (que pessoas negras não-mulheres ou mulheres não-negras não sofrem), e que portanto racismo e misoginia contra mulheres negras acaba tendo um peso maior do que só misoginia + racismo.

Muitas pessoas usam interseccionalidade para descrever também questões de outros grupos marginalizados, como transmisoginia (misoginia e cissexismo contra pessoas transfemininas), alossexismo e racismo contra pessoas racializadas a-espectrais, misoginia e monossexismo contra mulheres multi, discriminação religiosa e racial contra candomblecistas negres ou psicomisia e heterossexismo contra pessoas neurodivergentes e heterodissidentes.

Este vídeo (que possui legendas disponíveis em várias línguas) pode ajudar a fixar melhor este assunto.

Enfim, eu também já vi muitas críticas em relação a como pessoas brancas usam mal o termo, seja por reduzi-lo a falar sobre diferenças de identidade, seja por ignorar questões específicas de pessoas racializadas. Então, se você for uma pessoa branca, eu sugiro que você reflita bastante sobre se o termo realmente se encaixa nas frases que você for dizer antes de usá-lo.

De qualquer forma, é importante pensar em como os eixos de opressão como coisas separadas são apenas ferramentas para simplificar explicações e categorizações. Ao pensar em ações concretas, é importante pensar que categorias como intersexo ou autista não existem num vácuo, e que vão existir pessoas intersexo que são trans, pobres, mulheres, neurodivergentes, racializadas, profissionais do sexo, etc. assim como pessoas autistas que vão ser intersexo, trans, pobres, mulheres, racializadas, profissionais do sexo, etc. E todos estes grupos vão ter suas próprias questões específicas também.

Mas como eu vou ter contato com tantos grupos e opressões? Eu nem conheço a maior parte desses termos!


Em relação aos termos em si, existem glossários como este, este, este e este.

Cada grupo, área, interesse ou coisa parecida vai ter seu próprio vocabulário, seja para não ter que usar frases grandes quando algo poderia ser resumido em uma palavra só, seja porque existem conceitos que precisam de palavras novas para poderem ser explicados com precisão.

Se você fizer um curso sobre qualquer coisa, você vai aprender termos que praticamente só pessoas da área que você escolheu conhecem. Se você for jogar um jogo online, provavelmente aprenderá termos e siglas que só serão usades naquele contexto. Aprender palavras novas para poder participar de discussões novas é comum.

É óbvio que cada pessoa vai ter que começar por algum lugar, mas nenhuma das palavras que usei aqui está muito fora do alcance de uma pesquisa básica.

Enfim, eu geralmente gosto de blogs para aprender estas coisas. Isso porque livros acabam sendo muito limitados em relação aos assuntos que tratam, e, se forem parte de alguma pesquisa acadêmica, é provável que os dados e que a terminologia usada estejam bastante desatualizades.

Publicações de massa, como reportagens na TV ou artigos em revistas como Veja e Planeta, também acabam sendo tendenciosas, mal explicadas e colocadas de forma ofensiva. Há um interesse capitalista em tratar grupos marginalizados como curiosidades ou coisas distantes, sem nunca apontar que existe uma opressão sistemática contra eles que precisa ser ativamente combatida.

Blogs, vlogs e podcasts acabam sendo uma boa forma de pessoas marginalizadas poderem falar sobre as coisas que as afetam sem terem que passar por tantas barreiras. Obviamente, o acesso à internet é limitado e isso faz com que sejam mais pessoas brancas e ricas que tenham acesso a ela, e o acesso ao conhecimento e à possibilidade de produção também acaba se concentrando em quem tem mais recursos.

Porém, fazer conteúdo para a internet é algo bem mais acessível do que escrever um livro, fazer um filme, fazer músicas para o rádio, conseguir uma coluna num jornal, etc.

Finalmente, eu quero apontar que ninguém é perfeite; muita gente pode acabar ignorando questões sobre certos grupos mesmo que façam conteúdo muito informativo sobre outros grupos. Eu só não recomendo conteúdo de quem é abertamente hostil contra outros grupos marginalizados, mas umas microagressões ou uns furos ainda estão num nível aceitável pra mim.

Aqui tem uns conceitos e umas dicas que podem ajudar a não passar vergonha, se você quiser se juntar a uma comunidade focada neste tipo de coisa para começar a aprender mais.

Interações

Quero aprender mais sobre certa questão relacionada a um grupo marginalizado, onde/para quem posso perguntar sobre isso?


Eu sugiro que primeiro você pesquise sobre a questão.

Se você não conseguiu achar nada, pergunte em algum lugar/para alguém que explicitamente aceita responder este tipo de pergunta.

Depois disso, você pode tentar perguntar em algum grupo que confia (seja de chat, de rede social, fórum ou presencial).

Se você ainda não conseguiu a informação ou não acha onde perguntar, você pode tentar perguntar abertamente em sua conta de blog/rede social, ou perguntar em privado para alguma amizade que deve saber sobre isso (mas só depois de perguntar se a pessoa se importa em responder uma pergunta sobre aquilo e de dizer que você pesquisou e não achou, se você não sabe o quanto a pessoa está confortável com isso).

O que você não deve fazer é achar uma pessoa aleatória pertencente ao grupo marginalizado que não te conhece e que geralmente não faz esse tipo de trabalho e enviar suas perguntas sem contexto ou tato nenhum.

Eu quero ser ume boe aliade, mas vejo chacota constante sobre como quem se diz aliade "só quer biscoito". Como não dar a impressão que meu ativismo é superficial?


(Uma pessoa aliada seria alguém de fora de um grupo marginalizado, mas que concorda com as causas de tal grupo e quer ajudá-lo em sua luta.)

  • Evite se classificar como aliade, a não ser que seja relevante (por exemplo, colocar em seu perfil onde você nunca fala de causas cisdissidentes e mal fala com pessoas cisdissidentes que você é uma pessoa cis aliada não faz muito sentido, mas ao confrontar alguém cis que não acredita que qualquer pessoa que não seja trans apoie pessoas trans, pode ser legal você dizer que apoia a causa).
  • Ao presenciar situações de discriminação contra grupos aos quais você não pertence, você provavelmente tem mais chances de convencer alguém de que aquilo é ruim do que alguém do grupo afetado. Use isto ao seu favor e, se não for para discutir e falar que aquilo não deveria ter sido feito, você pode ao menos não rir junto, não se colocar a favor do que foi feito, e/ou possivelmente ajudar quem está sendo afetade (no caso de haverem vítimas presentes ou que você tem contato).
  • Participe de eventos abertos ao público sobre grupos dos quais você não faz parte. Existe um ou outro evento fechado só para pessoas do grupo, então é bom conferir isso antes de ir, mas a maioria é aberta a todes.
  • Tente acompanhar e pesquisar sobre assuntos de grupos marginalizados sem depender apenas de sugestões de conteúdo alheias ou de respostas a perguntas ou pedidos que você fez. Ser aliade também tem a ver com não dar trabalho para pessoas do grupo marginalizado, e fazer perguntas diretas quando você tem dúvidas ou constantemente pedir sugestões de conteúdo sem nem pesquisar antes são formas de exigir trabalho.
  • Não exagere. Se você fala o tempo todo sobre o quanto admira um grupo marginalizado (do qual você não faz parte), posta o tempo todo recomendando links sobre ele, reclama sobre querer amizades/relacionamentos com pessoas de tal grupo e não ter e afins, parece menos que você quer ajudar a causa e mais que você está vendo pessoas desse grupo como um interesse a ser estudado, de forma objetificadora.
  • Não demonstre apoio a causas só quando outras pessoas estão vendo (ou só quando pessoas do grupo marginalizado em questão estão vendo). Muitas vezes, isso é perceptível.
  • Ao encontrar discriminação, não fique enviando esse tipo de coisa para pessoas marginalizadas só para mostrar que você também acha ridículo ou para tentar fazer com que alguma pessoa que você gosta brigue com quem está discriminando. Você ainda está estressando a pessoa (fazendo com que ela veja discriminação que a afeta) e/ou exigindo trabalho dela.


Eu queria compartilhar um vídeo/texto/meme/etc. ofensivo, não porque acho ele bom mas porque acho ele ruim/ridículo, ou porque quero avisar minhas amizades que isso está acontecendo. Como posso minimizar possíveis danos?


  • Se você vai passar o conteúdo para uma pessoa só, pergunte antes se ela quer saber disso.
  • Use avisos de conteúdo, para que pessoas possam optar por não ver aquilo.

Em plataformas onde existe função de spoiler/aviso de conteúdo, você pode simplesmente fazer isso:

Aviso de conteúdo: [discriminação anti-grupo]

[conteúdo que você quer passar dentro do conteúdo escondido]


Em plataformas onde isso não existe, você pode fazer algo do tipo:

Aviso de conteúdo: [discriminação anti-grupo]

.

.

[conteúdo que você quer passar]

.

.

Fim do aviso de conteúdo para [discriminação anti-grupo]


Você pode (e deve) dar uma descrição da sua intenção em compartilhar o conteúdo. Se a descrição menciona ou detalha a discriminação, sugiro deixar dentro do conteúdo escondido/protegido pelo aviso. Se não, pode ser antes ou depois.

  • Não passe o conteúdo diretamente.

Ao invés de dizer "olha só esse vídeo racista" e passar o link, você pode comentar sobre o que ocorre no vídeo dentro de um aviso de conteúdo sem dar mais visualizações para a página ou para o vídeo.

Não só sua descrição provavelmente vai causar menos impactos negativos do que ver o conteúdo "cru", como também a pessoa não vai ter que perder tempo consumindo conteúdo ruim e/ou aumentar a popularidade do conteúdo.

Se alguém realmente quiser o link, a pessoa pode pedir.

  • Evite fazer disso um hábito.

Mesmo que seja algo consensual (porque você pergunta antes/sempre avisa sobre o conteúdo), é possível que você e/ou que quem esteja recebendo as mensagens estejam usando isso como uma forma de remoer coisas ruins, ou de se sentirem seres superiores a quem faz isso sem estarem fazendo nada para combater as ideias do conteúdo.

Alguém disse que algo contribui com opressão/discriminação de um grupo marginalizado do qual não faço parte, mas eu discordo. Como proceder?


Acho que isso depende muito da situação.

Existem coisas que são mais controversas (por exemplo, se homossexual é um termo obsoleto/inadequado/ofensivo e não deve ser sugerido para pessoas ou se é um termo neutro que é só menos usado hoje em dia e que pode ser colocado em materiais), e coisas que boa parte da comunidade vai concordar (por exemplo, que recusar algum serviço a alguém por ser heterodissidente é discriminação heterossexista).

Também existe a questão de que tipo de pessoa está dizendo isso. É alguém da própria comunidade afetada, ou alguém que está dizendo ser aliade de tal comunidade?

Se é uma coisa que geralmente a comunidade afetada concorda que é ruim, eu sugiro não discutir, mesmo que você ache que talvez não seja algo opressivo. Talvez sua falta de experiência e conhecimento sobre aquele tipo de opressão esteja fazendo com que você não perceba que exista um problema, e, se você quiser entender mais sobre a questão, é provável que pesquisando você ache informações detalhadas sobre aquilo.

Se é algo mais controverso, mas que está sendo dito por alguém do grupo afetado, eu também sugiro não discutir, porque é muito difícil haver uma discussão quando só parece que você está sendo uma pessoa privilegiada frágil que não quer admitir que algo que você faz/concorda com contribui com opressão.

Se você realmente pesquisar e ler a opinião de outras pessoas sobre a questão (principalmente de ativistas que pertencem a tal grupo) e chegar à conclusão de que você realmente discorda, o que posso recomendar é se afastar da pessoa, ou, se for algo simples (como parar de usar certa palavra), fazer a coisa mesmo que você não ache importante, só para não machucar pessoas ou não comprar briga à toa.

Se quem está falando isso é uma pessoa que não pertence ao grupo marginalizado, e for uma questão que boa parte do grupo marginalizado (novamente, inclusive ativistas) não concorda que é verdade, você pode trazer as opiniões de pessoas marginalizadas sobre isso para discutir com a pessoa (desde que sejam materiais já prontos; não é legal sair perguntando para que pessoas façam um trabalho para você de graça só por conta de uma discussão).

Eu sei que muita gente diz que não é para tomar lados dentro de questões de grupos aos quais pessoas não fazem parte, mas tem vezes que isso é inevitável. Por exemplo, eu não sou gay/lésbique, mas se eu tiver que fazer um material sobre orientações, vou ter que tomar um lado em relação ao prefixo homo ser adequado ou não. E, se uma pessoa administra uma comunidade que não tolera discriminação, ela vai ter que decidir que tipos de comportamentos vão ser considerados discriminatórios.

Não recomendo sair tomando lado em qualquer discussão que houver, mas tem vezes que isso é necessário, e que é óbvio que um lado está sendo tomado mesmo se a discussão estiver sendo evitada.

O que eu faço se eu literalmente não conseguir fazer algo que me pedirem para fazer?


(Por exemplo, parar de usar certa palavra ao ter problemas de memória/de aprendizado de vocabulário que fazem com que isso seja difícil, ou não dar dinheiro para pessoas/grupos por não ter dinheiro sobrando.)

Acho que isso depende para cada situação.

Por exemplo, no caso de não ter dinheiro para pagar alguém que exige dinheiro para responder perguntas, você vai ter que aceitar que não vai poder perguntar para aquela pessoa, por mais que você queira perguntar. (Ou talvez você possa pedir para outra pessoa pagar e perguntar por você, se possível.)

No caso de não ter dinheiro para ajudar alguém que precisa de ajuda urgente, você pode ao menos compartilhar a postagem, ou, se não for uma postagem, perguntar se a pessoa quer que isso seja compartilhado em outras plataformas às quais você tem acesso.

No caso de você não conseguir lembrar de não usar certas palavras, você pode colocar em algum lugar em seu perfil/sua introdução que você talvez use certas palavras porque nunca se lembra de removê-las de seu vocabulário.

No caso de você não conseguir lembrar nomes e conjuntos de linguagem em um espaço físico onde não há essa informação escrita em lugar nenhum, você pode escrever para tentar lembrar e/ou avisar que pode acabar esquecendo. (Treinar usar -/-/- como linguagem neutra pode ser uma boa pedida para esta situação.)

Eu fiz um material informativo/uma postagem sobre um grupo do qual não faço parte, e alguém daquele grupo me criticou por não ter falado direito de tal grupo. Como proceder?


Na minha experiência, é bem raro que as reclamações do grupo estejam erradas. É comum que esse tipo de material seja baseado em pesquisas superficiais e/ou suposições feitas por pessoas de fora do grupo.

Eu sugiro considerar as reclamações, pensar no quanto era possível seu material ser mais preciso, corrigi-lo (se for possível) e pedir desculpas tanto para quem reclamou quanto publicamente, além de falar do que será feito para que tais erros sejam evitados no futuro.

Se o problema foi apenas falta de espaço, então o material não foi bem planejado.

Caso você tenha pesquisado e lido mais sobre o assunto sem achar nada que concordasse com o que a pessoa disse, eu sugiro ou ignorar esse tipo de comentário, ou responder com diversas fontes que discordam da pessoa.

Eu vi gente dizendo que minha orientação/preferência sexual/tara é problemática, mas eu realmente me sinto dessa maneira, o que eu faço?


Considere que há sim a possibilidade de você se sentir assim por conta de estereótipos e pressões sociais, e que pode haver a possibilidade de mudar de ideia no futuro ao ter mais contato com grupos marginalizados que são frequentemente objetificados/estereotipados na mídia e no "senso comum".

De qualquer forma, você deveria considerar não ficar falando sobre isso (o que inclui não usar rótulos que indicam isso), porque assim só parece que você tem orgulho de ser preconceituose e/ou de apoiar sistemas opressivos. É perfeitamente possível procurar relacionamentos sem ficar dizendo o quanto você vai aceitar/rejeitar alguém por questões que não deveriam fazer parte de sua orientação.

Comportamentos em comunidades

Existe gente que vai me odiar só porque sou homem/cis/hétero/branque/neurotípique/etc.?


Podem te odiar se você se recusar a aprender sobre questões de pessoas que não tem o seu privilégio, ou podem não querer falar com você sobre questões que tem a ver com a marginalização que elas tem e você não.

Mas, em geral, não vão te odiar ou tratar mal só por isso. A maioria dos espaços mistos moderados têm algum tipo de regra sobre não atacar indivíduos.

Mas o quanto devo levar a sério alguém que sempre diz que "[pessoas de tal grupo privilegiado] são [coisa ruim]"?


Em geral, quem faz isso tem como objetivo uma dessas coisas, ou ambas as primeiras:
- Chamar a atenção para as atitudes que geralmente são pessoas de certo grupo privilegiado que fazem;
- Desabafar sobre tratamento ruim constante por parte de pessoas do grupo privilegiado;
- Tentar redirecionar o ódio pela opressão de um grupo privilegiado para outro grupo marginalizado (ver: apito de cachorro).

Essas duas primeiras coisas podem incomodar, mas se você entende que o que a pessoa passou é pior do que o que você está passando, você provavelmente não vai ligar tanto.

(Também recomendo que não responda coisas do tipo "ah é, eu sou branque e também odeio pessoas brancas" ou "mas eu sou cis e não faço isso, então tem esperança pra nós", porque assim parece que você se incomodou com o sofrimento da pessoa e quis fazer com que isso fosse sobre você para que você possa se redimir mesmo só fazendo esforços básicos para ajudar na causa em questão.)

Em relação à terceira coisa, é um sinal de que aquela pessoa quer convencer pessoas que odiar certo grupo marginalizado é aceitável, ou está começando a acreditar nisso. Você pode tentar falar com a pessoa, ou pode se afastar dela, ou fazer o que faria com qualquer outra pessoa que você descobriu que é heterossexista, racista, cissexista, misógina, capacitista, elitista, etc.

Por que alguns grupos são fechados apenas para pessoas de certo grupo marginalizado? Isso não é ruim para pessoas privilegiadas que querem aprender sobre a causa ou acompanhar sues parceires?


Várias pessoas possuem desconfiança ou mesmo trauma de pessoas de grupos privilegiados, e não vão se sentir totalmente seguras se abrindo em espaços com pessoas que possuem certos privilégios sobre elas.

Por exemplo, certas mulheres só vão se sentir seguras em falar sobre seu relacionamento abusivo em espaços sem homens, ou certas pessoas neurodivergentes só vão se sentir seguras em falar sobre aspectos considerados normais da sociedade serem danosos para elas em espaços sem pessoas neurotípicas.

Ou, se forem espaços sobre atividades específicas, é provável que o grupo tenha sido historicamente excluído de certos espaços ou julgado por estar neles, e algo focado no grupo contribui para o fortalecimento de uma comunidade de pessoas pertencentes a certo grupo que faz certa atividade, e incentiva pessoas que não se sentiriam seguras em um grupo misto a fazerem certa atividade.

Nem todo espaço é feito para que pessoas privilegiadas possam aprender sobre as experiências de grupos marginalizados. Espaços diferentes podem servir para propósitos diferentes. Vários materiais e eventos estão disponíveis a pessoas que não fazem parte de tais grupos.

Por que uma pessoa de um grupo marginalizado pode querer só ter relacionamentos dentro daquele grupo, enquanto uma pessoa de um grupo privilegiado não pode querer só ter relacionamentos dentro nem do grupo privilegiado e nem do marginalizado?


Porque quando uma pessoa que é, por exemplo, trans, só quer ter relacionamentos com outras pessoas que são trans, isso é por conta de querer alguém que compartilhe a experiência de ser trans em uma sociedade cissexista, e/ou de não confiar que pessoas cis interessadas realmente respeitem pessoas trans em todos os sentidos.

Enquanto isso, alguém cis que só quer ter relacionamentos com pessoas cis não se importa com experiências cis em comum, porque a sociedade já coloca ser cis como normal.

Já alguém cis que só quer ter relacionamentos com pessoas trans não está agindo assim por ter motivo para não confiar que pessoas cis respeitem sua identidade e modalidade de gênero. Geralmente sentem "atração por pessoas trans" porque consideram pessoas trans como de um gênero só, ou ao menos consideram mulheres trans como um gênero separado de mulheres cis e homens trans como um gênero separado de homens cis.

Ou podem também ter presunções específicas sobre pessoas trans, como por exemplo que possuem genitálias de uma pessoa perissexo (não-intersexo) do seu gênero designado que funcionam de forma igual às genitálias de uma pessoa cis perissexo (o que pode acontecer, mas que muitas vezes não é o caso). Também podem achar que pessoas trans só se identificam desta forma por conta de alguma vontade sexual extrema. Estes são alguns exemplos de preconceitos, mas existem vários outros também.

Eu citei pessoas trans como exemplo, mas esse tipo de comportamento diferenciado entre as preferências de quem é do grupo marginalizado e de quem não é acontecem com vários grupos de formas similares.

Alguns espaços são muito específicos (como grupos para mulheres negras sáficas ou blogs focados em experiências transneutras). Não é melhor fazer só grupos mais gerais, que ajudam mais gente?


Às vezes, questões mais específicas acabam ficando perdidas em lugares com foco mais geral. É mais fácil para mulheres negras sáficas acharem pessoas que também são mulheres negras sáficas em um grupo específico para isso do que em um grupo que é só de mulheres, só de pessoas negras ou só de pessoas LGBTQIAPN+, por exemplo.

Grupos gerais são importantes, especialmente se a ideia é que sejam grandes e assim possam fazer mais coisas. Mas grupos específicos também são importantes, por poderem ser mais seguros e inclusivos que grupos gerais, ou trazer mais visibilidade a questões específicas de forma que pode acontecer bem menos em espaços mais gerais.


Um guia introdutório para comunidades NHINCQ+ inclusivas


(NHINCQ+ é uma alternativa mais inclusiva a LGBTQIAPN+)

Este guia não está sendo feito para dizer que você precisa agir de certa maneira para conseguir se dar bem em um espaço inclusivo, ou que comunidades precisam ser assim para serem inclusivas.

Este guia tem apenas o objetivo de ensinar sobre alguns conceitos muito conhecidos dentro de várias comunidades inclusivas que giram em torno de justiça social (isto é, comunidades antiopressão), e de ajudar pessoas a interagir com pessoas cujas identidades e comunidades podem ser mais "fora do comum" pra quem está de fora.

Este guia não tem como ser muito resumido, porque é justamente para pessoas que não sabem por onde começar quando deram seu primeiro passo para fora de comunidades que tentam ficar mais dentro de certas normas sociais.

Por favor, avisem se houver algum conceito que não dê para entender nem dentro do contexto, nem procurando aqui e nem fazendo uma rápida pesquisa na internet; tentarei assim colocar alguma explicação ou algum link que explique o conceito.


Informações básicas sobre o funcionamento de opressões


Aviso de conteúdo: menções vagas a opressões, suicídio e violência (vagas porque tentei deixar isto leve, mas ainda mostrar qual é o ponto de ligar pra isso). Se você acha que já sabe o suficiente sobre isso e isso vai te deixar mal, pode passar para a próxima seção.

(Uma nota sobre vocabulário: pessoas marginalizadas são pessoas que são negras, indígenas, mulheres, gordas, gays, trans, autistas, cegas, profissionais do sexo, pobres, etc. Eu não uso o termo minoria porque, embora saiba que minoria neste contexto signifique minoria de poder e não necessariamente de número, termos como grupos marginalizados ou pessoas minorizadas mostram melhor que tais grupos/comunidades/pessoas não estão naturalmente fora de posições de poder, e sim são mantidos fora delas.)

Racismo, misoginia, cissexismo, capacitismo, etc. não são problemas individuais, ou restritos a grupos que querem intencionalmente machucar pessoas marginalizadas. São frutos de sistemas hierárquicos que querem manter certos grupos como normais e/ou ideais, e outros como anormais e/ou inferiores. Com a colonização e a globalização, acredito que a maioria da população mundial tenha sido exposta a esse tipo de ideal.

Isto é, qualquer tipo de opressão vai estar enraizado em boa parte das pessoas que você conheceu, conhece ou vai conhecer. E muita coisa é perpetuada de forma velada; de forma que deixam parecer que não é realmente preconceito/discriminação/opressão, e sim alguma outra questão, como "senso comum" (que é sim pautado nessa lógica opressiva), sorte/azar, mérito ou qualquer outra coisa.

Perpetua-se a ideia de que ódio a grupos marginalizados é só questão de alguém que vai lá e comete alguma violência. Assim é fácil passar a culpa para pessoas específicas, ao invés de todo um sistema.

Alguém não é violentamente racista, misógine, cissexista, heterossexista, etc. do nada. A pessoa possivelmente cresceu com sua família expressando nojo por certo grupo marginalizado, com mídia (programas de rádio, TV, etc.) fazendo piadas em cima de tal grupo marginalizado, com suas amizades usando termos que se referem a aquele grupo marginalizado como algo ruim. Daí a pessoa consegue um trabalho com pessoas que pensam de forma parecida, algume de sues colegas lhe passa conteúdo que fala sobre como tal grupo marginalizado vai destruir seu estilo de vida, a pessoa consome mais mídia com discursos de ódio, e a pessoa decide eventualmente extravasar raiva agredindo alguém, porque não pensa naquela pessoa marginalizada como humana e sabe que ninguém em seus círculos lhe odiaria se soubesse.

É por isso que é necessário quebrar a ilusão de que tá tudo bem desde que fique só entre amizades; de que tá tudo bem porque é só uma piada; de que tá tudo bem porque é só ignorância; de que tá tudo bem porque precisamos respeitar a "diversidade de opiniões"; de que tá tudo bem porque é só conteúdo fictício (mesmo que tal conteúdo esteja sendo consumido em massa a um ponto que muita gente acha que aquilo é uma reflexão fiel da vida real). Todas essas coisas colaboram para que ataques continuem.

E quando não é alguém cometendo violência, são pessoas tendo que viver em volta de outras que fazem piadas sobre algo que é integral às suas identidades, que sexualizam sua existência de forma inapropriada, que menosprezam suas habilidades, que fazem cara de nojo, que gritam coisas na rua, que riem quando essas pessoas pedem respeito, que são maltratadas quando precisam de algum serviço que requer comunicação com outras pessoas, etc. Não é porque essa violência não é física que não importa. E não é à toa que qualquer pessoa marginalizada tem mais chance de desenvolver depressão, alcoolismo ou similares, ou de cometer suicídio.

Ou seja: opressão, no contexto desta postagem e da maioria dos espaços que usam a palavra, se refere a opressão estrutural. Tem uma postagem mais completa sobre isso aqui, mas já aviso que ela contém mais exemplos de exclusão social, automutilação, e outras consequências de opressões.

Para que servem espaços antiopressão


Pelo que está na seção acima, é importante ter espaços que vão contra essas opressões, aonde é possível:

  • Que pessoas marginalizadas tenham espaços que consigam não ter que lidar com esse tipo de coisa o tempo todo;
  • Que pessoas marginalizadas e suas aliadas possam se conhecer e formar redes de apoio;
  • Entender que certas coisas comuns no dia-a-dia contribuem com sistemas opressivos;
  • Aprender a evitar fazer ou apoiar ações envolvendo retórica, vocabulário e/ou violência opressive;
  • Organizar materiais e ações que ajudem outres pessoas e grupos a também parar de contribuir com opressão;
  • Compartilhar experiências relacionadas com opressão e assim desenvolver vocabulário, (re)construção de identidades e culturas fora da norma e estratégias para lidar com sistemas opressivos;
  • Organizar ações coletivas que consigam fazer um grande impacto na cultura e no sistema, almejando uma revolução que danifique ou destrua sistemas opressivos.

Obviamente, nem todo espaço vai conseguir fazer tudo isso; e nem é o objetivo de todo espaço fazer tudo isso, ainda mais quando são espaços pequenos.

Um grupo de amizades no WhatsApp pode tentar não perpetuar sistemas opressivos e ser uma rede de apoio para as pessoas marginalizadas do grupo, mas dificilmente vai partir para fazer ações de educação ou conseguir fazer uma revolução sozinho.

Uma rede social alternativa com pouca gente dificilmente vai criar um grupo coeso o suficiente para cunhar vocabulário que vai ser espalhado em outros lugares, e tem menos possibilidade ainda de construir uma cultura queer significativa ou acabar com o capitalismo.

Ambas essas comunidades podem ser pontos de partida para coisas maiores, e devem ser, se houver a oportunidade. Mas já aviso que muitas vezes isso não é viável, e que isso não significa que o grupo é totalmente inútil, superficial ou reformista.

Em geral, este guia estará tratando de comunidades que não têm mobilização suficiente para fazer ações maiores, porque tenho mais experiência com isso.

Lidando com intolerância


Aviso de conteúdo: menções a opressões, invalidação e assassinato.

Para resumir, pessoas que são abertamente machistas/racistas/cissexistas/heterossexistas/diadistas/capacitistas/etc. geralmente não são bem vindas em espaços antiopressão, a não ser que tais espaços não sejam realmente antiopressão.

Talvez, sim, estas pessoas possam algum dia aprender a não ser assim. Mas, se simplesmente deixarmos elas ficarem em nome da convivência ou da liberdade de expressão ou do aprendizado ou de qualquer outra desculpa do dia, pessoas marginalizadas (o público alvo, na falta de um termo melhor) não vão se sentir tão seguras e vão embora.

É estressante ter que lidar com quem invalida sua existência, e é perigoso ter que lidar com alguém que quer te matar.

Sugiro ler sobre o Paradoxo da Tolerância.

O que são microagressões e qual o motivo de você ter que ligar para elas


Aviso de conteúdo: microagressões de vários tipos ¯\_(ツ)_/¯

Eu fui ver se alguém conseguia resumir o que são microagressões, e achei esta definição:

São palavras ou atos que têm um componente agressivo, mas que de uma forma ou de outra encobrem ou deformam o conteúdo violento que transmitem.


(Fonte)

Também achei esta aqui:

As microagressões são um tipo de maus-tratos psicológicos baseados no desprezo persistente e cotidiano, em uma anulação na qual o outro faz uso das brincadeiras para roubar, pouco a pouco, a nossa autoestima. Estamos diante de um tipo de maus-tratos do qual nem sempre se fala, já que não é tão evidente, não deixa marcas e, às vezes, nem quem o pratica nem quem o recebe são conscientes de que estão diante de uma prática muito destrutiva.


(Fonte)

Ambas as fontes falam de microagressões num contexto mais geral. Porém, em espaços de justiça social, geralmente se fala de microagressões quando estas estão vinculadas a algum tipo de discriminação.

Algumas microagressões que podem acontecer nesse contexto são:

  • Uma pessoa não conseguir explicar porque ela gosta menos de tal coisa, quando o motivo provavelmente tem a ver com o envolvimento de algum grupo marginalizado naquela coisa;
  • Uma pessoa não quer/não gostaria de ter envolvimento social, romântico e/ou sexual com pessoas de certo grupo marginalizado (como se todas tivessem certa característica indesejada);
  • Uma pessoa quer ter envolvimento social, romântico e/ou sexual apenas/preferencialmente com pessoas de certo grupo marginalizado da qual ela não faz parte (como se todas tivessem certas características desejáveis específicas);
  • Piadas "inofensivas" excessivas/indesejadas sobre uma identidade;
  • Piadas, retórica ou termos que igualam ser de um grupo marginalizado a ser algo ruim;
  • Utilização de coisas criadas por pessoas marginalizadas de forma que deturpa e apaga o sentido original delas;
  • Diminuição da importância de uma identidade;
  • Diminuição do impacto de uma opressão ou de coisas que ocorrem por conta de opressão (inclusive em relação a microagressões);
  • Comparação de opressões ou de coisas que ocorrem por conta de opressão para diminuir a discriminação que alguém ou algum grupo sofre ou sofreu.

Alguns exemplos disso são:

  • O presidente é um idiota. Idiota significa "sem inteligência", e inteligência é uma construção social baseada no que uma cultura branca, neurotípica, patriarcal e mascunormativa valoriza. Usar uma palavra que significa "sem inteligência" como xingamento é dizer que pessoas fora dessa norma são piores de alguma forma;
  • Pessoas pansexuais gostam de panelas? Pessoas com atração por muitos gêneros já sofrem com estereótipos baseados em promiscuidade e em "transar com tudo e qualquer coisa". Pessoas de qualquer identidade não-hétero já sofrem com ter que constantemente combater desinformação e presunções errôneas sobre o que suas identidades significam. Essa piada pouco original é só mais uma coisa na pilha;
  • Não sei se vou confiar num jogo feito por uma mulher... contribui com a ideia de que mulheres são piores para realizar trabalhos técnicos ou que não são relacionados a cuidar do lar e de crianças, uma ideia extremamente misógina.
  • Aposto que ele é misógino assim por ter pau pequeno. Isso é atribuir misoginia (novamente, um problema sistemático) a pessoas individuais, além de colocar a culpa disso em uma característica que qualquer pessoa pode ter independentemente do quanto for misógina, e de ressaltar o quanto uma característica comum a muitos homens trans e intersexo é digna de deboche, de nojo ou de mostrar o quanto essas pessoas são "menos homens" por isso. O gênero de uma pessoa não tem a ver com genitália ou com o quanto ela é diferenciada de outra genitália; estas são retóricas extremamente nocivas contra pessoas trans e intersexo.
  • Eu queria namorar um japonês, eles são tão organizados, podiam me ajudar... é uma frase que contribui para as noções de que todas as pessoas japonesas são organizadas (ou seja, gera vergonha em cima das pessoas japonesas que não são por não preencherem esse suposto requisito básico e vergonha em cima das pessoas japonesas que são por contribuírem para esse estereótipo), e para a noção de que são subservientes e prontas para ajudar quem não tem essa habilidade (o estereótipo de asiátique submisse é extremamente nocivo e parte de contextos colonialistas).

"Mas são só coisas que todo mundo diz!" E é esse o ponto. Por serem microagressões, a primeira vista estas coisas parecem inofensivas; mas elas são constantes na vida de pessoas marginalizadas.

Mesmo "elogios" são ruins, quando reforçam estereótipos (ou porque você está dizendo que aquela pessoa é assim por ser de um grupo e não por seu próprio mérito, ou porque você está dizendo que aquela pessoa é diferente do grupo que em geral é inferior).

E mesmo que você não esteja atacando uma pessoa marginalizada diretamente, sua ação demonstra o quão pouco você considera suas questões válidas.

Uma boa dica para evitar "cair no lugar comum" e assim cometer microagressões é se expressar de forma mais literal, quando você não entende bem as conotações da forma figurada.

Ao invés de fazer uma piada usando o nome da identidade de alguém, você pode apenas perguntar o que a identidade significa. Ao invés de usar insultos vazios para ofender alguém, pense no que realmente a pessoa fez/a coisa é, e a descreva diretamente como inconsequente, imprudente, intolerante, nociva, prejudicial, ruim, desprezível, etc.

Obviamente, a questão não é só trocar palavras. A maioria das pessoas também precisa passar por um processo de reflexão sobre o quanto sistemas opressivos estão internalizados nela, e questionar o que foi empurrado como verdade por esses sistemas opressivos, quando prejudica grupos marginalizados e tem pouco fundo de verdade.

Estou falando de questões como categorização de atração sexual baseada em genitálias, categorização de personalidade/interesses baseada em raça/etnia/lugar onde nasceu, categorização de quais pessoas sabem do que estão falando ou não se baseando em se elas falam/escrevem "certo" ou possuem bom equipamento de áudio/vídeo, categorização de qual gênero a pessoa tem e de qual linguagem a pessoa usa baseada em sua aparência, etc.

Eu também recomendo que você evite falar de forma que, ainda que não seja ativamente relacionada com alguma discriminação, remeta a grupos que geralmente perpetuam discursos de ódio.

[Leituras recomendadas (aviso de conteúdo para um monte de discriminações): Get to Know the Memes of the Alt-Right and Never Miss a Dog-Whistle Again, The Far Right's Most Common Memes Explained For Normal People]

Calling out, calling in, postagens educativas vagas


Quando alguém comete uma ou mais microagressões, existem algumas formas de lidar com a pessoa que não são banimento imediato da comunidade ou ignorar o que a pessoa fez.

Ao contrário da questão de pessoas obviamente intolerantes, lidar com quem comete microagressões é complicado, porque é até possível que a pessoa queira corrigir seu comportamento caso perceba que esteja machuchando alguém ou defendendo sistemas opressivos. Mas também é possível que a pessoa insista em fazer algo porque não entende como aquilo pode machucar ou afastar alguém.

Esta seção mostra algumas das formas que comunidades podem lidar com esse tipo de situação.

Callout/call-out/call out é um termo que muita gente que navega bastante pela internet deve ter ouvido falar.

Basicamente se referem a listas explícitas do que alguém fez de problemático, preferencialmente com provas.

Estou colocando call-outs na categoria de "ferramentas intracomunidade" porque raramente vejo call-outs para pessoas que estão completamente fora de uma comunidade (embora eles também existam).

Eu diria que são o resultado de quando uma comunidade não tem como depender de moderação para remover elementos problemáticos; assim, o único jeito de "tirar" alguém de uma comunidade é depender do resto das pessoas bloqueando a pessoa.

Embora não seja impossível de aprender com call-outs, eles são vistos como uma experiência estressante e extrema demais para ser um incentivo ao aprendizado. Em geral, são um último recurso, ou algo desnecessário porque o grupo tem moderação que pode remover a pessoa antes de chegar a esse ponto.

Call-outs também são infames por poderem isolar pessoas mesmo com provas falsas ou por coisas pequenas. Por isso, é recomendável que só sejam feitos por questões sérias, como abuso ou evidência de conexão recente com grupos reacionários. Mesmo assim, muita coisa pode ser resolvida diretamente com a moderação.

Ou seja: em comunidades como Colorid.es e como o fórum e o Discord do Orientando, call-outs provavelmente mais atrapalham do que ajudam, não são recomendados, e podem ser contra as regras em alguns casos.

Ao invés de call-outs, é recomendável fazer call-ins, que ao invés de serem públicos e com o objetivo de fazer todo mundo saber sobre o que a pessoa fez de errado, são privados e com o objetivo de só deixar a própria pessoa saber o que ela fez de problemático.

Caso exista uma moderação ativa e confiável, é possível contatar a moderação (ou reportar diretamente a postagem) para fazer isso. Também é possível tentar falar com uma amizade da pessoa, se você tiver essa intimidade com a amizade mas não com a pessoa.

O problema de call-ins é que eles não são visíveis, justamente para evitar que pessoas tenham que escolher lados ou fiquem falando sobre isso. Então, para a moderação, para as pessoas afetadas e por outras pessoas que tomaram nota, pode ser impossível de ver que a pessoa foi avisada e está disposta a não cometer aquele erro no futuro.

Mesmo assim, pode-se dizer que quando a equipe responsável pela comunidade avisa alguém que seu comportamento está fora das regras do site, isso também é um call-in, mesmo que as regras quebradas não tenham a ver com discriminação.

Se você acha que não vale a pena denunciar, e também não tem intimidade com a pessoa, você pode mandar alguma mensagem pública que eduque sobre a questão.

Eu recomendo tomar cuidado com isso, porque se a mensagem for direta demais, pode ser desnecessariamente hostil, de forma que talvez seria melhor ter falado com a pessoa mesmo. Eu recomendo postar o aviso em outro dia, de forma que não mencione nenhum ocorrido.

Uma mensagem educativa geral precisa ser explicativa: ou seja, precisa dizer que ação problemática está sendo feita, como e por qual motivo tal ação é nociva, e o que pode ser feito no lugar de fazer tal ação (se tal ação for alguma coisa que foi bem intencionada e que poderia ser melhor, e não alguma coisa que só discrimina/incomoda).

A vantagem de uma mensagem pública é que muito mais gente pode ver e aprender. A desvantagem é que você não tem como saber se quem deveria ler e absorver as informações vai fazer isso.

De qualquer forma, é recomendável você denunciar a pessoa ou contatar a moderação quando alguém está cometendo (micro)agressões, caso a moderação tenha o objetivo de manter um espaço inclusivo.

Consumo de conteúdo problemático (também vale para produtos em geral, mas vou focar em mídia)


Midia é um dos assuntos mais fáceis de se falar. Mas, como vivemos sob vários sistemas opressivos, grande parte da mídia reproduz/colabora com estas opressões.

Isso pode ser por meio da própria mídia (por exemplo, um filme com certo grupo marginalizado sendo estereotipado), e/ou pelo meio da produção (por exemplo, pessoas que fizeram o filme já fizeram comentários discriminando contra grupos marginalizados).

As reações a pessoas que falam sobre como gostam desse tipo de conteúdo variam de comunidade para comunidade. Algumas comunidades não vão se importar desde que ninguém fique negando o quanto aquela mídia/quem a fez é nocive para certos grupos, outras nem deixam que pessoas que gostam de certas mídias entrem na comunidade.

Pessoalmente, acho que não há como todos os gostos de alguém serem completamente livres de perpetuar opressão ou de ter qualquer outro problema, mas também não vejo porque alguém comprometeria seu lugar numa comunidade só porque precisa expressar que gosta muito de consumir alguma coisa.

A ideia de que alguém vai ser taxade de {rótulo que expressa que a pessoa contribui ativamente com opressão} só por gostar de {mídia que contribui ativamente ou passivamente com tal opressão} é meio exagerada, mas sugiro prosseguir com cautela.

Aprendendo sobre opressões e discriminação


Infelizmente, eu não consigo resumir tudo o que aprendi por anos em uma lista de links para ler em um dia.

Além disso, linguagem e retórica vão evoluindo com o tempo, e podem diferir de comunidade para comunidade.

Considere acompanhar contas/páginas que falem sobre isso em seus métodos preferidos (RSS, redes sociais, barra de favoritos, etc.), mas evitando acompanhar somente as que são:

  • Apenas/majoritariamente memes e postagens de poucas linhas (sim, isso pode ser legal para chamar a atenção de quem não sabe de nada, mas aprender sobre discussões mais profundas e com mais nuance também é importante);
  • Apenas/majoritariamente chacota de retórica opressiva (novamente, isso pode ser legal, mas tem muita coisa importante que acaba não sendo discutida com esse formato);
  • Curadas por aliades (não que elas não possam ser boas, mas tente centralizar vozes marginalizadas);
  • Focadas em combater uma única opressão a ponto de ignorar que outras existem;
  • Favoráveis a chacota de grupos que não são pró-opressão ou privilegiados só porque "são estranhos" e não são marginalizados por si só (isso significa que é só uma questão de tempo até acharem alvos marginalizados "aceitáveis");
  • Apegadas a termos/argumentos que contribuem para sistemas opressivos (mesmo que o conteúdo seja bom para uma opressão específica).

Existem vários espaços que te permitem fazer perguntas, como Ajuda NHINCQ+ (especificamente sobre questões NHINCQ+) e Writing with color (especificamente sobre como escrever personagens racializades). Sugiro procurar por um espaço assim para fazer perguntas, caso você não tenha conseguido achar o que quer com pesquisas; não é muito legal você mandar esse tipo de pergunta pra pessoas marginalizadas aleatórias.

Evite depender de outras pessoas te avisando sobre algo ser microagressão ou retórica intolerante. Tente se informar de questões além das que colocam na sua frente, e se questionar sobre se certas atitudes suas realmente são inofensivas.

"Errei, e agora?"


Talvez você tenha falado algo que não sabia que era uma microagressão, ou tenha feito uma piada que para muita gente remete a um apito de cachorro reacionário. Talvez outra pessoa tenha percebido isso e tentado falar com você sobre isso. Aqui estão algumas dicas para lidar com isso:

  • Se você concorda que o que fez é errado, não tente se justificar. Peça desculpas (sem exagerar) e pesquise mais sobre o assunto para não cometer o mesmo erro novamente;
  • Se você não concorda que o que fez é errado, pense no motivo pelo qual você não acha que aquilo é errado antes de argumentar. Outras pessoas afetadas não terem falado com você sobre isso antes ou a sociedade em geral achar que o que você fez é aceitável não são bons motivos;
  • Não faça com que a outra pessoa tenha que se dar o trabalho de pesquisar para você o motivo daquilo ser errado. Faça sua própria pesquisa antes de perguntar;
  • Evite trazer pessoas que não fazem parte da situação para a discussão (e, se quiser fazer isso, confira com essas pessoas em uma situação privada primeiro se aceitam fazer parte dela).


Sobre identidades que você nunca viu


Agora começa a parte que se aplica especificamente a espaços NHINCQ+ inclusivos.

Nestes espaços, é comum você ver pessoas demonstrando que são de identidades que você achava que ninguém usava de verdade, ou das quais você nunca ouviu falar.

O mundo heterodissidente (de pessoas cuja orientação não pode ser precisamente descrita apenas como hétero) vai além de L/G/B.

E comunidades inclusivas vão conter pessoas que se sentem seguras para dizer que sua atração é fluida (por meio de rótulos como arofluxo, abrossexual ou outros), por mais de um gênero (por meio de rótulos como toren, polissexual, pan ou outros), condicional (por meio de rótulos como demi, lith, fray ou outros), inexistente (por meio de rótulos como omniarromântique, assexual estrite, claperromântique ou outros), fraca/vaga/ocasional (por meio de rótulos como gray-a, acevague, caligo ou outros), por pelo menos certo gênero (por meio de rótulos como dórique, trízique, aquileano, sáfica ou outros), e por assim vai.

O mundo cisdissidente vai além de pessoas trans binárias (ou seja, pessoas que se identificam somente como homens trans/transexuais/transgênero ou como mulheres trans/transexuais/transgênero) e de pessoas que só se definem como não-binárias.

Existem pessoas que não são contempladas pela cisnormatividade mesmo que se identifiquem totalmente com seu gênero designado (como pessoas utrinquegênero e ipsogênero), existem pessoas que não se dizem não-binárias mesmo que se encaixem na definição, entre outras. (Se você está falando de pessoas cisdissidentes ou não-cis num geral, estas pessoas precisam ser inclusas também.)

Também existem muitas pessoas que preferem usar rótulos mais específicos do que não-binárie. Por exemplo, uma pessoa gênero-vácuo é totalmente sem gênero e/ou tem vácuo no lugar do gênero; alguém que é nonvir tem uma identidade de gênero fortemente ligada com masculinidade mas completamente afastada do gênero homem; alguém que é gênero-fae muda de gênero de tempos em tempos mas sua identidade de gênero nunca muda para gêneros que são masculinos.

Cada rótulo possui suas particularidades, e tais particularidades podem afastar ou atrair pessoas para certos rótulos, mesmo que mais de um rótulo possa ser utilizado para a mesma situação.

Boa parte das pessoas que usa rótulos menos conhecidos também usa rótulos mais conhecidos em outras ocasiões. Mas isso não é algo que pessoas devem ser forçadas a fazer.

Existe uma postagem aqui que fala mais sobre os motivos de pessoas preferirem certos termos a outros.

Em questão de pessoas intersexo... bem, é raro que pessoas não-perissexo se identifiquem com outra coisa, mesmo que algumas pessoas não gostem da conotação errônea de "entre os sexos" que intersexo dá. (Pessoas com cromossomos XXX ou XYY não estão "entre" os dois sexos aceitos pela sociedade eurocêntrica cristã, mas ainda são intersexo, por exemplo.)

De qualquer forma, o que você precisa ter em mente em relação a interagir com pessoas com identidades diferentes da sua é isso:

  • Não é legal afirmar que certa identidade é inútil apenas porque existem outras parecidas (mesmo se houver uma exatamente igual, nomes alternativos não são necessariamente inúteis);
  • Antes de sair falando que uma identidade é problemática, tente falar com outras pessoas sobre isso e ver muitas perspectivas sobre a questão, para ter certeza de que você não está apenas contribuindo com discriminação;
  • Não sugira identidades "mais adequadas" para pessoas que não as requisitaram;
  • Evite fazer perguntas como "por que você usa {rótulo 1} ao invés de {rótulo 2}?" Caso você realmente tenha esta dúvida, coloque ela de forma geral ("por que alguém usaria [...]") em um lugar que mais de uma pessoa possa responder, e coloque um aviso de conteúdo de possível invalidação para que isso não seja jogado na cara de pessoas frágeis cansadas desse tipo de pergunta;
  • Evite fazer perguntas como "mas por que você se identifica como {rótulo}?" A não ser que alguém tenha dito explicitamente que não se importaria em responder, essa é uma questão que pode ser extremamente pessoal e complexa demais para responder a uma pessoa aleatória;
  • Evite fazer perguntas sobre nomes de registro, genitália, funções corporais, transição hormonal ou outras questões pessoais, por mais que você tenha curiosidade de saber;
  • Evite fazer piadas sobre ter uma identidade específica demais (ex.: "nossa eu devo ser celebsexual eu só tenho tesão por celebridades"), especialmente se você não usa identidades tão específicas quanto as da piada;
  • Não presuma que pessoas não passaram por certos tipos de discriminação por terem identidades diferentes da sua. Pesquise e procure conhecer outras experiências;
  • Não tente resumir ou reduzir a importância de certas identidades (ex: "pra mim, qualquer homem que gosta de homens é gay");
  • Tente usar linguagem inclusiva quando sua postagem se aplica a vários grupos (ex: se você está falando sobre qualquer pessoa que sente atração por vários gêneros, use multi ao invés de bi). Vários termos pouco conhecidos podem te ajudar nisso, então sugiro que você pergunte sobre isso!

Ah é, se você usa LGBT ou LGBTs, eu sugiro mudar isso. Talvez você esteja acostumade com essas siglas serem o auge da inclusão, mas estas siglas foram e são usadas para excluir propositalmente pessoas intersexo, assexuais, arromânticas ou mesmo de outras identidades que "tecnicamente poderiam ser da sigla original", mas que "se fossem mesmo da comunidade mesmo só diriam que são bi ou trans ou lésbicas ou gays e pronto".

Isso não significa que você tem que usar NHINCQ+, queer ou algo igualmente abrangente e pouco aceito. Você também pode usar LGBT+, LGBTQ+, LGBTI+, LGBTQA+, LGBTQI+, LGBTQIA+, LGBTQIAP+, LGBTQIAPN+, QUILTBAG+, comunidade arco-íris ou outras variações disso.

Não existe lista completa de todas as identidades NHINCQ+, mas se você está procurando pelo que significa algo específico, pode tentar achar a resposta aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.

Você não precisa saber de todos os termos existentes ou usados, mas sugiro que tente manter a mente aberta e evitar excluir pessoas injustamente.

Sobre linguagem pessoal e neutra


Para os propósitos deste texto, vou definir linguagem pessoal como conjuntos de linguagem que pessoas usam para si, e linguagem neutra como conjuntos de linguagem usados para grupos com linguagem pessoal mista ou para pessoas cuja linguagem pessoal não foi determinada.

Por exemplo, a linguagem certa para se referir a uma pessoa chamada Maria é o artigo a, o pronome ela e o final de palavra a (a/ela/a). Então podemos dizer que a/ela/a é a linguagem pessoal da Maria.

Daí suponhamos que exista outra pessoa, que se chama Leandro, e que usa o/ele/o. Esta é a linguagem pessoal de Leandro. Maria deve se referir a Leandro usando o/ele/o, mesmo que a linguagem pessoal dela seja a/ela/a.

Agora, digamos que alguém queira se referir à Maria e ao Leandro ao mesmo tempo. Você pode usar "eles", mas isso significa dar prioridade à linguagem de Leandro, e isso tem base na ideia de que o/ele/o é uma linguagem mais importante por ser mais usada por homens. Você pode usar "elas", mas isso significa dar prioridade à linguagem de Maria; e como usar a/ela/a como linguagem neutra não é algo comum, é possível que te interpretem como alguém que não quer reconhecer que Leandro usa o/ele/o.

Na maioria dos lugares, ninguém vai estranhar se você se referir a estas duas pessoas como "eles". E não é proibido fazer isso em espaços inclusivos.

Porém, pense na seguinte questão: um grupo de 5 pessoas está fazendo panfletos sobre a identidade trans. Três são mulheres trans, e usam a/ela/a. Uma é um homem trans, que usa o/ele/o. Uma é uma pessoa não-binária transfeminina, que usa -/ila/e.

Se referir ao grupo como "eles" está centralizando a identidade de um homem acima da identidade de quatro não-homens, que, inclusive podem ter uma grande repulsa a serem tratades por uma linguagem vista pela sociedade como a associada ao seu gênero designado. Se referir ao grupo como "elas" pode fazer as duas pessoas que não usam a/ela/a se sentirem mal, porque homens trans já são acostumados com pessoas usando a/ela/a por invalidação, e pessoas que usam neolinguagem (o que inclui qualquer pronome diferente de ele e de ela e qualquer final de palavra ou artigo diferente de a e de o) também já estão acostumadas com serem invalidadas pelo meio de usar uma das linguagens padrão.

Ou, alternativamente, pense na seguinte questão: você quer se referir a um casal aonde uma das pessoas usa a/ila/a e a outra usa ze/elz/e. Usar tanto "eles" quanto "elas" já carrega uma grande associação com maldenominação.

Portanto, é preferível e recomendável que você use (ou ao menos treine usar) alguma linguagem que não remeta nem a o/ele/o e nem a a/ela/a. Os conjuntos e/elu/e e ê/elu/e são populares como neutros, mas também existem pessoas que propõem e/ile/e, le/elu/e ou i/ili/i.

Caso os exemplos não tenham sido suficientes para entender esta questão, aqui tem um resumo sobre o que são conjuntos de linguagem, e aqui tem uma página mais completa sobre neolinguagem e conceitos relacionados.

Mesmo que, no fim, você não queira usar algum conjunto que use neolinguagem como linguagem neutra, é extremamente importante que você ao menos aprenda a respeitar os conjuntos de linguagem pessoal alheios.

Enfim, minhas recomendações são as seguintes:

  • Não presuma gênero ou linguagem com base em aparência ou atitude. Confira a linguagem pessoal no perfil da pessoa antes de se referir a tal pessoa com qualquer termo que remeta a alguma linguagem específica;
  • Caso não haja informação sobre a linguagem de alguém em lugar nenhum, e não faça sentido perguntar, pode ser uma boa ideia usar linguagem neutra, desde que você não esteja usando a/ela/a, @/el@/@, o/ele/o ou similar como linguagem neutra;
  • Caso você não saiba como usar certo conjunto de linguagem, você pode tentar usar este gerador, que dá uns exemplos. Se precisar saber algo mais específico, você pode perguntar, ou chutar e indicar que não tem certeza de como é a forma certa;
  • Assim como em relação a identidades em si, não faça piadas ou presuma que sabe o quanto a vida de alguém é fácil pelo conjunto de linguagem pessoal que a pessoa escolheu.

Você também não deve presumir que a sua linguagem pessoal é óbvia para outras pessoas. Recomendo colocar sua linguagem no perfil. E caso alguém pergunte sobre sua linguagem, por favor responda adequadamente, ao invés de dar respostas indiretas que dependem de presunções cissexistas, exorsexistas, ou conformistas de gênero ou de linguagem para funcionar.

(Exemplos de respostas cissexistas, exorsexistas e/ou conformistas de gênero/linguagem para a pergunta "que conjunto de linguagem você usa" são: "olha minha foto e vê o que você acha", "eu sou mulher", "uso linguagem masculina", "uso pronome ele", "elu/delu" e "eu tenho um pau né". Todos estes exemplos dependem de presunções que excluem pessoas fora de certas normas.)


Espero que este guia tenha sido informativo!

Caso você tenha alguma dúvida, é só deixar um comentário!


Algumas dicas básicas sobre evitar vocabulário e retórica capacitista


Aviso de conteúdo: Capacitismo, palavras estigmatizadas capacitistas, discussão de/menção a outras opressões, menção a rede social centralizada

Naveguei só um pouquinho no Twitter, e já tive que ler um monte de merda capacitista, inclusive de gente se defendendo de capacitismo usando capacitismo.

Então aqui estão alguns fatos, para pessoas que sabem pouco sobre o assunto:

Para facilitar, usarei neurodivergente/ND como sinônimo de qualquer pessoa que não é neurotípica/NT. Ou seja, isso vai incluir quaisquer pessoas com deficiências/transtornos/doenças mentais e pessoas que são neuroatípicas (com A no meio). Lembrando que todos estes termos só devem ser usados para pessoas que se identificam com eles.

1) Usar palavras que trazem o sentido de "estar num estado mental fora do comum" para apontar que pessoas são perigosas ou ridículas contribui com o estigma de que pessoas neurodivergentes são perigosas ou ridículas.

Isso inclui: chamar uma radfem de louca, chamar um político de maluco, dizer que tal grupo está delirando, etc. Eu já diria que qualquer uso de louque/maluque/doide ou de palavras similares é uma referência a isso.

2) Os chamados "transtornos de desenvolvimento" são reais, e ser diagnosticade com um deles não necessariamente significa que a pessoa é incapaz de aprender qualquer coisa ou vai ter tendência a ser reaça.

Adicionalmente, escrever mal ou falar de forma "estranha" não necessariamente é sinal de não saber das coisas.

Portanto, evite:

a) Usar autista, down, "acho que está no espectro", "especial", etc. como xingamentos ou sinais de que algo/alguém é ruim/infantil;

b) Usar termos como imbecil, idiota, retardade, demente, mongol (este também é racista), débil mental e outros como xingamentos ou sinais de que algo/alguém é ruim/infantil;

c) Julgar pessoas ou fazer piadas em cima delas por conta de escreverem, falarem ou se expressarem mal (isso também pode entrar em xenomisia, dependendo do motivo);

d) Fazer piadas EsCrEvEnDo AsSiM pArA mOsTrAr QuE aLgO é RiDíCuLo, ou usando "dãa", "hurr durr" ou onomatopeias similares.

2,5) As chamadas deficiências físicas e sensoriais também são reais, e também não demonstram incapacidades de entender algo ou de não ser reaça.

Cegueira e surdez não devem ser usadas como eufemismos para não saber de algo ou não querer considerar algo. Alguém que não conseguiu encontrar um objeto que deveria ser fácil de achar não "parece cegue", assim como alguém que não quer considerar um ponto de vista não "parece surde".

Uma pessoa coxa se apoia em uma das pernas para andar. Uma pessoa manca possui ao menos um membro a menos do que duas pernas e dois braços. Uma pessoa aleijada teve ao menos um de seus membros removidos. Tais experiências não devem ser usadas como eufemismos para mecanismos, organizações ou sistemas que não funcionam tão bem como deveriam ou prometiam, porque isso infere que pessoas que são descritas por essas palavras "não funcionam direito". Esta é uma ideia capacitista.

3) Usar nomes de neurodivergências como xingamento ou traço de personalidade não é legal.

Isto é: você não é autista por gostar de desenhos animados, não tem TOC porque gosta de ter a casa limpa, não tem "transtorno de personalidades múltiplas" (o nome atual é transtorno dissociativo de identidade, ou multiplicidade se você quer englobar uma gama maior de experiências onde há mais de uma pessoa num corpo) porque muda de opinião frequentemente, etc.

Se você sinceramente acha que é neurodivergente, sugiro pesquisar mais a fundo do que estereótipos vazios, falar com pessoas que se identificam com essas experiências de forma séria, etc.

E isso aqui também inclui xingar pessoas, ideias ou qualquer outra coisa usando palavras como bipolar, narcisista, esquizofrênique, paranóique, anoréxique e fóbique.

É, pois é, a palavra homofobia foi cunhada para ser uma fobia. E o sufixo fobia para opressões é sim muito utilizado para ligar intolerância com neurodivergência.

Eu posso sugerir como alternativas se referir ao sistema em geral ("homofobia" → heterossexismo, ou duaricismo dependendo do contexto, "transfobia" → cissexismo), usar -misia, que significa ódio (homomisia, transmisia), usar -intolerância (homointolerante, transintolerante) ou usar discriminação/opressão contra o grupo/anti-grupo (discriminação contra lésbicas e pessoas gays, opressão anti-trans, etc).

4) Rótulos de "funcionamento" são capacitistas.

Cada pessoa possui forças e fraquezas em diferentes áreas, e neurodivergências também funcionam desta forma. Uma pessoa que é autista pode não ter problemas para falar bastante, mas ter muitos problemas em entender regras sociais, e outra pessoa também autista pode quase não falar, mas entender regras sociais mais facilmente.

Geralmente são pessoas de fora que dão o rótulo de "tal coisa leve/fraca" ou de "tal coisa pesada/forte/profunda", e estes geralmente só se aplicam a como a pessoa se expressa por fora, e não ao que estão passando por dentro.

E, geralmente, as pessoas "de alto funcionamento", "com Asperger, não autistas", "com transtorno leve", etc. têm suas dificuldades e seu ativismo negades; afinal, são "quase neurotípicas".

Enquanto isso, as pessoas "de baixo funcionamento", "com síndrome de Down forte", "com ansiedade profunda", etc. geralmente não são consideradas dignas de saber o que é melhor para si e/ou não são levadas a sério. Afinal, e se a pessoa achar que sabe algo que não sabe por conta de alucinações? E se a pessoa for deixada sozinha por um tempo e depois não souber fazer algo básico, mesmo que a pessoa esteja dizendo que sabe?

Estes dois grupos geralmente são pessoas do mesmo grupo em circunstâncias diferentes. Toda pessoa vai ter aspectos que é capaz ou incapaz de fazer certas coisas. A divisão só incentiva que pessoas neurodivergentes sejam constantemente julgadas e invalidadas pela sociedade neurotípica.

5) Inteligência é um conceito capacitista, entre outras coisas.

Pessoas inteligentes são, afinal, as que se adaptam bem à sociedade, as que tiveram acesso a conhecimento por meio de boas escolas, bons livros e circunstâncias que permitiram que elas tirassem proveito disso. São as pessoas que conseguem falar/escrever de forma fluida e sem enrolação (algo que muitas pessoas neurodivergentes ou mesmo deficientes físicas podem não conseguir fazer).

São as pessoas cujas habilidades são valorizadas por homens brancos, afinal habilidades vistas como "de mulher" ou que são valorizadas em culturas que não sejam a branca eurocêntrica não têm tanto valor.

São as pessoas que conseguem esconder sua dor e parcialidade e "argumentar de forma racional", mesmo que pessoas marginalizadas estejam completamente justificadas em terem raiva, tristeza ou outras emoções por conta de sua marginalização.

Enfim, tudo isso significa que medições de inteligência em geral são discriminatórias. Isso inclui se identificar como sapiossexual (mesmo que de brincadeira porque você "não aguenta mais gente burra"), classificar os níveis de inteligência alheios (inclusive os de pessoas intolerantes e os de pessoas que você gosta), e usar xingamentos baseados em "não ter inteligência" (burre, e vários da seção que fala de xingamentos contra pessoas com neurodivergências consideradas transtornos de desenvolvimento).

Em geral, piadas envolvendo ter cérebro pequeno/grande também caem na categoria de serem capacitistas por medirem inteligência.

6) Pesquisem xingamentos em geral antes de utilizá-los!

Isto não é bem um fato, mas é algo útil.

Se você não xingaria alguém de viado ou bicha, mesmo como palavras totalmente fora do contexto de chamar alguém de gay, porque isso contribui com homomisia, por que é aceitável xingar alguém de burre, maluque ou imbecil?

Babaca é um termo de origem banta que significa vagina. Imbecil e estúpide significam "desprovide de inteligência". Uma pessoa doida "apresenta indícios de loucura". Alguém insane "não possui o domínio de suas capacidades mentais". Alguém demente "sofre de algum tipo de distúrbio mental".

Talvez no seu círculo ninguém preste atenção a isso, mas em outros círculos sim.

Como uma observação final, não, ninguém precisa vir me explicar que é possível ser capacitista sem usar palavras estigmatizadas ou memes capacitistas, ou que existem pessoas que morrem por expressar sintomas de neurodivergência em público e serem assim vistas como perigosas.

Porém, a ideia de que capacitismo tem só a ver com "reclamar de termos que todo mundo usa" não vem do que pessoas que são deficientes/neurodivergentes falam, e sim de pessoas tentando silenciar ativismo anti-capacitista tanto por tentar reduzir capacitismo a termos inapropriados quanto por então dizer que qualquer ume que fala contra o uso de palavras estigmatizadas e retóricas capacitistas não deve ser levade a sério.

É possível ser contra mais de um tipo de opressão/discriminação ao mesmo tempo.

O esforço eterno pela independência da normalidade na internet


Um texto sobre o não lugar de quem não quer depender apenas de megacorporações para interagir na internet mas também não se encaixa noutros padrões da IndieWeb

A insistência na normalidade


Eu perdi a esperança na capacidade de autorreflexão da maioria das pessoas quando estas pararam de usar máscaras em massa dentro de espaços fechados e declararam que "acabou a pandemia" por ter acabado a quarentena mesmo com os números de infecções não diminuindo drasticamente.

Entendo que há pessoas com dificuldades reais acerca do uso de máscaras: pessoas que tinham que escolher entre máscaras inefetivas e que machucavam; pessoas com questões sensoriais sérias acerca do uso de máscaras, incluindo alergias a tecidos; pessoas sem dinheiro para usar máscaras de forma consistente e que garante sua efetividade; etc. Também entendo que máscaras são incompatíveis com certas atividades, como comer ou praticar atividade física intensa.

Mas a quantidade de pessoas sem máscaras em espaços fechados onde suas bocas não são necessárias não é coerente com exceções feitas por questões de acesso financeiro ou problemas sensoriais. E as repetidas instâncias de condições similares a festival flu quando pessoas vão viajar a trabalho ou voltam de eventos cheios de gente de todo canto indicam, ao menos para mim, que sair de máscara em mais circunstâncias (e trocar a máscara por uma nova/lavada depois de algumas horas de uso) resultaria em menos circulação de resfriados e gripes.

Mas, não! A atitude normal é a de não sair de máscara, e, portanto, a atitude ideal passa a ser não sair de máscara. Pessoas se sentem até ameaçadas por outras pessoas tomando esta simples precaução pelo bem de suas saúdes: eu e outres que andaram comigo de máscara já passamos por chacota e comentários ofensivos na rua; vários comentários negativos sobre apresentações de My System da FELICIA que vi por aí eram sobre "a máscara ser desconfortável por lembrar da pandemia" ainda que seja só uma rendinha com um resultado visual praticamente transparente e não uma referência forte a um acessório médico.

Muitas vezes sou ignorade quando falo sobre como "ofensas genéricas" muitas vezes são referências a neurodivergências ou outras questões similares. Eu também venho de um contexto onde já tinha noção de que a maioria das pessoas não requer apenas informação sobre práticas inclusivas ou éticas para aplicá-las no futuro. Então até posso imaginar a pergunta: o que houve de tão diferente em presenciar a queda de frequência do uso de máscaras em público?

A questão é que o uso de máscaras é benéfico mesmo para a própria pessoa que a utiliza (fora os casos mencionados). É diferente de formas de conscientização que só beneficiam outros grupos, especialmente grupos menores que podem ser descartados ao almejar um "público geral". Qualquer preocupação estética com o uso de máscara pode ser adaptada por meio de formatos, cores e estampas diferentes: o motivo destas possibilidades não terem sido muito desenvolvidas foi a pressa para "voltar ao normal" após algumas vacinas.

Enfim, talvez seja a influência das redações em vídeo (videorredações?) que gosto tanto de assistir, mas na verdade este texto não é sobre saúde física, e sim sobre plataformas digitais.

Como é que tem gente que ainda gosta do Instagram?


Eu entendo completamente que há pessoas com atividades comerciais ou informativas que dependem do Instagram, naquele círculo sem fim de pessoas dependendo de uma plataforma ruim por ser popular e a plataforma ser popular por existirem muitas pessoas dependendo de tal plataforma. Em Seja queer, faça um site, eu proponho que pelo menos seja feito o esforço de também ter um espaço próprio em adição a um perfil em rede social corporativa. Eu dou exemplos de sites não necessariamente desconhecidos ou que requerem conhecimento profundo para começar o próprio projeto, como Carrd e WordPress.com, e também de outros serviços mais independentes mas que considero mais interessantes, como Nekoweb (que requer no mínimo conhecimento de HTML... ou de como providenciar um arquivo apenas composto por texto) ou Flarum (um fórum que precisa ser instalado na própria máquina com um design que acho bastante agradável).

Mas, mesmo que eu não veja ninguém defendendo o Instagram — sim, há anúncios demais; sim, há muito discurso de ódio e ele pode ser recomendado pelo algoritmo; sim, o único jeito de ter certeza se alguém publicou algo é ir em seu perfil porque publicações não são mostradas na ordem e podem ser aleatoriamente enterradas — também há poucas organizações e pessoas se esforçando para serem independentes da plataforma. Vejo pessoas fazendo ou querendo fazer conteúdo para o Instagram mesmo quando ele não oferece formatos ideais para fotos que requerem alta qualidade, textos ou vídeos, com pouca ou nenhuma consideração por pelo menos reproduzir o próprio conteúdo em outros lugares.

Vejo projetos surgindo no Instagram focados em eventos sem links externos para sites, blogs ou plataformas de eventos: por exemplo, radar.squat.net, plataforma de eventos gratuita e independente, tem no momento de escrita 18 eventos marcados no Brasil inteiro (um pouco mais de um terço em comparação com os 45 eventos argentinos) e 31 grupos registrados (um número comparável aos 32 grupos da Tchéquia, país com população menor do que a cidade de São Paulo), sendo 11 dos grupos de Porto Alegre. Enquanto isso, os únicos eventos abertos e não comerciais na cidade de São Paulo para os quais sei que existem divulgações fora do Instagram são os do Centro de Cultura Social e da Casa 1, além dos de Qósmiques, obviamente. Nix Diversidade tem vários contatos de ligas de esporte, mas nem todos os horários de treinos ou links para inscrição estão disponibilizados fora do Instagram.

Múltiplas Identidades é o único projeto que conheço que teve a iniciativa de migrar completamente para fora do Instagram. Há algumas publicações para o Orientando.org que faço no modelo do Instagram que são reproduzidas em seu blog e em sua conta no Tumblr, mas não vejo muites outres fazendo esforços similares. Conheço apenas esta postagem e pessoas que se dão o trabalho de fazer material diferente e não completamente intercambiável entre as duas versões, como Ace In Grace e algumes artistas musicais. Mas isto ainda é um acontecimento muito raro: não existem referências externas do material publicado na Rede NB+, em neolinguagem ou por Serafim Lissa Koga em outros locais.

Só que ficar no Instagram para conferir material educativo ou sobre eventos não funciona (a não ser que eu faça uma lista de perfis manuais em um arquivo e confira cada perfil separadamente por novidades). Eventos muitas vezes só aparecem para mim em cima da hora ou quando já passaram, e material educativo muitas vezes é raso e não traz referências externas (parcialmente por conta de limites impostos pela própria plataforma). A falta de referências externas/prévias também acaba incentivando publicações repetitivas com informações básicas, as quais muitas vezes são simplificadas a ponto de cometer equívocos ou promover falsidades. Eu já vi uma publicação falando que exorsexismo vem da "raiz exo", sendo que a informação sobre de onde vem a palavra está disponível online
. As pessoas não-binárias fazendo imagens em 2026 insistindo que a não-binaridade é sempre trans como se estivéssemos em 2015 não estão em conversa com as várias comunidades não-binárias (e intersexo) onde modalidade de gênero é tratada como um tema mais aberto do que "quem não é cis é trans" ou "quem não é trans é cis". Quase todes que falam sobre o tema da neolinguagem que não fazem parte do meu círculo insistem nos termos "linguagem neutra"/"linguagem não-binária" e em usar pronome/de + pronome para exemplificar conjuntos de linguagem, e elu tende a ser o único neopronome presente, criando uma falsa sensação de domínio do assunto nes leitóries, a qual acaba prejudicando pessoas como eu.

Coincidentemente, no dia que escrevi esta parte do texto, ume amigue me contou sobre uma definição de uma identidade não-binária que escrevi no Orientando ser supostamente inacessível demais a alguém sem contato com o assunto para publicar numa conta de Instagram sobre não-binaridade sem uma redefinição reducionista. Esta mentalidade ilustra muito bem o problema: para alcançar mais números, há a (suposta) necessidade de tratar toda a audiência como não só ignorante mas também incapaz de pesquisar sobre o assunto por si própria (vendo algumas perguntas em comentários por aí, admito que às vezes isso até é verdade). Algumas das pessoas que se identificam com o termo podem se sentir alienadas por sua redefinição, mas o que importa é sempre "atingir" uma maioria "mais normal", e não se preocupar com como alguém do grupo minoritário sendo descrito pode se sentir vendo um termo que usa para seu gênero ser redefinido para ser mais palatável. Aliás, por que parar aí? Pessoas "normais" não entendem de gênero mesmo: toda publicação sobre não-binaridade não deveria conter uma explicação sobre a diferença entre sexo, gênero imposto, modalidade de gênero e identidade de gênero para não confundir ou alienar ninguém? Eu tenho o privilégio de poder linkar páginas como Não-binárie, Lista de modalidades de gênero, Vocabulário usado em círculos NHINCQ+ inclusivos e Respostas completas para dúvidas complexas sobre ser xenogênero, e confiar que quem quiser saber mais sobre um assunto vai clicar neles ao invés de entrar em contato para que eu repita informações que já escrevi e disponibilizei. Mas aí eu não faço números, ao menos não em uma sociedade onde a incuriosidade é normalizada.

Eu já conversei com outres que também tentam ou tentaram educar um público mais amplo sobre questões de justiça social no Instagram, e tendemos a concordar que os engajamentos de lá tendem a ser só números, sem nenhum retorno perceptível. Pessoas "curtem" publicações denunciando uma determinada postura como exorsexista, mas seguem perfis que tomam tal postura em toda publicação e também dão curtidas em suas publicações. Eu sempre publico sobre os eNBontros no Instagram, e sempre recebo várias curtidas — inclusive de gente não-binária que mora na mesma cidade que eu — mas as pessoas que vão ao evento são as que o conheceram via amizades, indicações em espaços físicos, Reddit ou ABRANB, nunca pelo Instagram. Pessoas curtem publicações denunciando termos que elas tomam como problemáticos e não deixam de usar tais termos. Qual o ponto, então?

Isso sem contar que eu não tenho paciência para ficar vendo um monte de propagandas e discursos de ódio que ficam ocupando minha tela inteira. Às vezes encontro uma ou outra coisa interessante, mas prefiro ocupar meu tempo em um feed RSS curado ou no fediverso. E é uma pena que outras pessoas tenham uma preferência tão pesada para estas experiências majoritariamente porque suas amizades talvez apareçam em suas linhas do tempo.

As "alternativas" dúbias


Quando pessoas sentem vontade de ir além de redes sociais com formatos engessados de publicação, o que ainda presencio é, na maior parte, a guinada para Tumblr, Substack e Medium. Plataformas com problemas que vão de dickovers, uso de IA para "detectar IA e paredes de log-in não necessariamente decididas por usuáries até decisões irregulares de moderação e políticas extremistas de liberdade de expressão. Espaços que ao menos podem cumprir requisitos básicos como sistemas de tags e acessibilidade sem login, mas que muitas vezes já são tratados como "plataformas alternativas ideais por oferecerem mais controle e menos anúncios aes sues usuáries" em comparação com X e Instagram.

Fazer um blog "saiu de moda", é o que muita gente diz. Não entendo como um formato de publicação online possa "sair de moda" sem que a internet inteira saia. Modelos prontos para blogs não são mais inacessíveis a celulares. Blog não significa ter um layout de três colunas com vários módulos indicando informações sobre a autoria, nuvem de tags, histórico de publicações e blogs recomendados, e, mesmo que significasse, não entendo o grande problema de ter uma navegação que não dependa de uma série de menus escondidos se ela estiver em uma tela grande o suficiente para mostrá-los.

O que aconteceu é quem produz textos agora tende a ter que ou encaixá-lo em moldes de Instagram ou TikTok ou colocá-lo em uma plataforma que se justifica como "além de um blog". Substack especializa em inscrições por e-mail, um formato considerado mais antigo do que um blog, mas que "voltou à moda" porque pessoas não usam mais Twitter para acompanhar lançamentos em blogs e desaprenderam (ou ninguém nunca as ensinou) a usar a função de favoritos do navegador e/ou leitura via RSS. Medium e Tumblr são "blogs sociais" com curtidas e funções de seguir e ver publicações populares, enquanto Patreon e afins servem para quem quer monetizar suas publicações. Além do Tumblr, todas estas plataformas ganharam a reputação de serem "mais profissionais" do que Blogger, Wordpress ou qualquer pessoa dizendo que tem um blog ao invés de uma newsletter ou uma "página" (sendo que o que querem dizer com "página" é um perfil em uma rede social, não um documento personalizável: personalização virou uma infantilidade do passado, porque o normal é deixar grandes empresas decidirem os formatos e estilos de cada texto).

Na realidade, nenhuma dessas plataformas exige profissionalismo, até onde sei. Não acho que já soube de contas sendo deletadas por textos de baixa qualidade. Todos esses textos poderiam estar sendo publicados no Blogger ou no Tumblr (bom, com a exceção daqueles que as pessoas querem que sejam pagos). Nesses tempos, eu vi alguém falando algo como "as pessoas querem fazer publicações de blog, mas não querem fazer isso em um local que entendam como um blog", e é este um dos grandes problemas atuais com quem decide publicar textos longos e acaba optando por uma plataforma de estética corporativa gerenciada por uma empresa buscando o lucro.

Pessoas que dizem "não dependerem mais de redes sociais" não necessariamente estão livres do pensamento normativo sobre quais são as formas ideais de se comunicar e informar pela internet.

A falta de referências/links relacionados normalizada por redes sociais convencionais também parece afetar muitas dessas pessoas que migram para textos mais longos em outros ambientes. Muitas pessoas que escrevem textos na lusosfera não usam links nem para refefenciar textos que já escreveram e nem textos (ou vídeos/podcasts/páginas) de outres autóries; no máximo referenciam estudos acadêmicos ou sites de notícias quando citam dados divulgados por estes. Em certos casos, eu me pergunto o quanto estas pessoas sequer leem textos (ou foram atrás de outros tipos de mídia) sobre o mesmo assunto feitos por outras pessoas, ou se só presumem que são as primeiras pessoas a falar disso porque só dependem do que é impulsionado por redes sociais convencionais (e, quando aplicável, seus círculos acadêmicos) para determinar se alguém já dissertou sobre determinada experiência.

Organizações tendem a ser integradas fortemente com Google e Meta para formulários, aulas, confirmações e socialização. ABRANB usa Telegram (que também não é uma boa alternativa), mas praticamente todos os grupos não-binários gerais que tenho são no WhatsApp, um aplicativo que também sou obrigade a usar para confirmar e ocasionalmente até marcar consultas médicas. Noutro dia tive um problema com alguém me enviando um documento privado via Google não sabendo que o e-mail que eu providenciei teria que estar ligado a uma conta do Google para que isso funcionasse. Novamente, é um problema onde se presume que todes estão confortáveis com serviços centralizados. Eu consegui pular a era onde ter uma conta de Facebook era "o que todo mundo tem" sem uma conta no site, mas agora as expectativas para estar presente em outros serviços piorou bastante.

Quase toda vez que proponho Jitsi para videoconferências — uma plataforma que não vende dados de suas conferências, não guarda dados a longo prazo e não requer que todes tenham contas no serviço (embora a pessoa que administre precise logar via algum serviço externo) — há alguém com um problema arbitrário que impede ou deveria impedir o uso do serviço pelo grupo inteiro (ou alguém fica dando alfinetadas sobre um programa menos ético ser mais funcional). Se o problema de alguém é com Zoom ou Google Meet, porém, o problema é individual, e não apaga os méritos do software. Tirar sarro do Jitsi ser ruim é normal porque é um "programa alternativo esquisito", tirar sarro do Google Meet não é aceitável porque usá-lo é o normal para a maioria.

Muitas das organizações que se gabam sobre irem além de uma conta no Instagram e um grupo no WhatsApp caem nestes e em outros buracos: uso de IA generativa porque não entendem o que há de errado nisso e não conseguem atrair pessoas que sabem o quanto isso pega mal; uso de GMail mesmo que eu esteja vendo cada vez mais administradóries negando cadastros com GMail em suas plataformas ou pessoas filtrando e-mails do GMail por conta do spam; comunicação e disponibilização de informações via Discord quando deveriam ser fóruns e wikis; uso do Linktree.

E é praticamente impossível falar com a maioria das pessoas sobre isso, porque elas não consideram que vão ser atingidas negativamente por decisões corporativas enquanto for normal usar ferramentas com falhas de segurança perigosas que fortalecem espionagem do governo estadunidense e de grandes empresas e fortalecem a estética fascista da IA generativa. É normal ser ignorante sobre tecnologia, então pra quê aprender sobre alternativas menos problemáticas?

O outro lado


Muitas pessoas realmente são incuriosas, insistentes na normalidade imposta por bilhonáries ou a favor de grandes empresas poderem fazer o que quiserem. Mas também há as pessoas que se sentem sem poder ir para lugar algum, que não têm acesso a alternativas por outros motivos, desde falta de informação (e de saber como ir atrás de tal informação) até a questão das alternativas serem carentes de funções que estas pessoas consideram cruciais.

Tipo, ok, se alguém tem uma loja e só tem tempo de atualizar um local fora o local onde é gerenciado o inventário da loja, pode fazer mais sentido investir no Bluesky ou no Instagram do que num servidor de Mastodon independente. Se alguém quer reunir o máximo de pessoas libragênero possíveis para um grupo de convivência, é provável que o WhatsApp seja mais viável do que o Matrix. Se uma empresa obriga sues funcionáries a usar IA generativa, eu não vou julgar quem preferir manter seus empregos e compactuar com a autosabotagem da empresa a ficar sem emprego só para poder se gabar de nunca usar IA generativa.

Novamente, o problema não é simplesmente o uso de certos serviços, e sim a insistência de que o único jeito correto de existir é o que se alinha com interesses bilhonários ou mal intencionados. O jeito que prega confiança única e total em serviços fechados e centralizados, mesmo quando informações que deveriam ser públicas são expostas somente em locais pouco acessíveis que podem ser extintos, comprometidos ou abandonados, e informações que deveriam ser privadas são vendidas entre empresas de anúncios. Que um rumor ruim sobre o fediverso é motivo para nunca ver o que há por aqui, mas múltiplos fatos ruins sobre o Instagram são ignorados por quem continua tendo motivos para frequentar a rede.

Há empecilhos reais no caminho de migrar parcialmente ou completamente para serviços mais éticos. O problema é exagerar tais empecilhos para justificar nunca sair da própria zona de normalidade.

Enfim, aqui estão algumas coisas que provedóries de alternativas mais éticas poderiam fazer:

Chamar mais tradutóries


Muitos aplicativos possuem traduções ruins, parciais ou inexistentes para a língua portuguesa, o que prejudica o entendimento de interfaces por pessoas com nível básico ou nulo da língua inglesa. Traduções ruins também podem prejudicar a experiência, e estas estão cada vez mais comuns com o crescimento na confiança em traduções automatizadas.

Pessoalmente, eu não me importaria em contribuir e chamar outras pessoas para contribuir, mas apenas se isso significasse não utilizar linguagem genérica mascunormativa ou exorlinguista no projeto e o projeto não aceitar contribuições futuras que "corrijam" tais esforços. Eu não me importaria em usar o conjunto -/-/- como genérico dentro de um contexto de traduzir interfaces (embora prefira normalizar alguma forma de neolinguagem como genérica, mesmo uma não escolhida por mim), mas precisa haver o comprometimento de que tal linguagem é proposital e não intercambiável com o(a)/ele(a)/o(a) ou o/ele/o quando outras pessoas estiverem desinformadas ou com preguiça.

Entender o público-alvo


Já presenciei muitas lamentações sobre só pessoas na área da tecnologia se importarem com tecnologias éticas. Porém, o problema é que as vantagens de tais tecnologias são muitas vezes ignoráveis ou incompreensíveis para usuáries com a necessidade de serem normais. O projeto Mastodon tende a se divulgar como "a rede social que não está à venda" e uma alternativa federada de código aberto ao X/Twitter: obviamente pessoas que vão parar lá e optar por servidores de uso geral como mastodon.online ou mas.to fazem isso por precisarem urgentemente de uma rede alternativa ou por estarem interessadas no que essas tecnologias mais recentes podem construir. Enquanto isso, servidores como colorid.es (tecnicamente Hometown, não Mastodon) e mastodon.art declaram seus nichos específicos (pessoas queer e artistas, respectivamente), e conseguem formar comunidades menos focadas em tecnologia e mais interessantes como espaços alternativos para membres desses grupos.

Pessoas que são interessadas unicamente em números não vão se interessar em nenhum desses quatro servidores. A falácia de que "é possível se comunicar com todos os servidores do fediverso de qualquer servidor" só cria falsas expectativas que terminam em frustrações: o fediverso não é frequentado por tantas pessoas em comparação com o Instagram, e qualquer servidor que presta bloqueia servidores com problemas de spam, material que mostra abuso de crianças, assédio e assim por diante, sendo que isso pode incluir o bloqueio de servidores onde também há mais pessoas de forma geral. "Somos uma comunidade alternativa para este grupo que não é centralizado em outros locais" é uma chamada mais atraente do que "somos uma comunidade livre para todes e juramos que há pessoas de todos os interesses aqui" (especialmente se a pessoa entrar e não achar ninguém ative falando sobre seus próprios interesses).

Considerar moderação e fragmentação como forças positivas


Muitas pessoas construindo plataformas alternativas presumem boa fé de outras pessoas interessadas. Na realidade, existem stalkers que não se importariam em seguir suas vítimas para redes sociais alternativas, pessoas buscando redes alternativas para disseminar discursos de ódio, nazistas que querem espaços para se reunir sem que seus avatares com suásticas sejam motivos para banimento, sites de aposta criando múltiplas contas apenas para linkar seus sites e assim por diante. Portanto, plataformas que "maximizam a liberdade pessoal" ou que são construídas de forma que dificulta banimentos ou aprovação manual de contas não são ideais na maioria dos casos.

Uma crítica comum a espaços que são menos conectados ou mais moderados é, porém, a inabilidade de "chegar em todo mundo". E eu diria que este é um problema causado pela fixação em normalidade: em teoria, uma publicação de Instagram pode ser recomendada a todes que usam o aplicativo, ou ao menos que tenham mostrado interesse em publicações similares. Na prática, algoritmos de popularidade valorizam publicações controversas (com vários comentários discordando) ou superficiais (sem nenhuma informação ou que não fale nada que pessoas interagindo já não soubessem). Num espaço onde há menos interações, uma publicação pode ser mais vista dentro da rede por permanecer por mais tempo nas linhas do tempo cronológicas alheias. Porém, ele não trará a ilusão de que a publicação poderá ser vista por uma parcela gigantesca da população mundial.

Quando eu falo sobre exorsexismo, exilinguismo, alossexismo, capacitismo ou afins em colorid.es, eu adoraria presenciar estas informações serem absorvidas por pessoas que existem para além do meu círculo. Porém, isso não acontece: a maior parte da população não se importa com tais questões. Há algumas pessoas que usam o sufixo -misia ao invés do sufixo -fobia ou que adotaram o modelo artigo/pronome/final de palavra por minha causa, mas tais comportamentos são a exceção, e não a regra. E isso não é uma questão de eu não ter audiência o suficiente, e sim do quanto as pessoas estão dispostas a refletir se minhas sugestões fazem sentido. Eu sei que no Instagram e TikTok a questão não é muito diferente pelos relatos de pessoas que concentram seus esforços por lá.

A parte da população que muda suas posturas ao encontrar informações sobre elas serem nocivas para determinados grupos não é equivalente à população que é ou poderia ser alcançada por uma publicação. E a mesma coisa vale para quaisquer outros objetivos de redes sociais, como compartilhar arte ou fazer amizades. Ninguém mantém milhões de amizades ou se importa com esta quantidade de gente como indivíduos: a ideia de que a quantidade de usuáries de uma plataforma é proporcional a quantas pessoas se importam com o que ume usuárie de tal plataforma tem a dizer é falaciosa.

Por isso também que sugiro aceitar quando determinados servidores do fediverso não federam entre si, ao invés de considerar isso um problema a ser resolvido. Alguns servidores colocam assédio baseado em discordância de opinião como construtivo, outros têm uma postura antiassédio firme: as pessoas confortáveis em cada espaço não precisam se comunicar entre si, e quem faz questão de se comunicar com os dois lados pode ter contas em ambos os espaços ou em um terceiro espaço neutro à questão. A incompatibilidade não deixa de existir em um espaço centralizado, ela só é mais estressante.

Facilitar o onboarding técnico


No caso de iniciativas que vão além de fazer uma conta em um serviço alternativo, são necessárias rampas melhores para entender detalhes técnicos. A maioria das pessoas que vêm falar comigo sobre "fazer um site" não sabem nem que domínio (o endereço alugado do tipo amplifi.casa ou colorid.es) é diferente de servidor (o computador que mantém software e banco de dados). Tem gente por aí com medo de mexer com HTML, algo que aprendi a fazer antes da puberdade, como se 90% de mexer com isso não fosse Markdown com passos a mais.

Mexer com HTML/CSS básico deveria ser tão comum e normalizado como já ter mexido num editor de vídeo qualquer para publicar em uma rede social ou em uma aplicação para um programa.

Facilitar o onboarding social


Espaços como fóruns e servidores pequenos do fediverso não são apenas especializados, mas também comunitários. Redes sociais comerciais treinam pessoas para se expressar da forma que quiserem, com formas exageradas ganhando mais atenção. Já espaços mais focados em construção de comunidades são mais regrados do que "não faça coisas ilegais ou que causem problemas para monetização", e pessoas que publicam conteúdo com pouco esforço, desconexo ou que pode ser incoerente com como o espaço é tematizado podem ter suas publicações ou contas trancadas ou deletadas.

Redes sociais também treinaram pessoas para ignorar as regras, por (no caso de plataformas gerenciadas por grandes empresas) muitas vezes serem documentos genéricos e longos, enquanto espaços menores que são abertos mas mais restritos com o que é permitido podem sentir a necessidade de usar menos linguagem formal mas explicitar determinadas demandas que podem não ser óbvias para quem veio do X ou Instagram.

Espaços sociais alternativos com valores éticos até tentam usar "moderação mais bem feita" como marketing, mas é difícil acostumar usuáries de redes corporativas com questões como bom senso e etiqueta. Por exemplo, um tópico tirando sarro do layout personalizado de um fórum sem dar nenhum comentário construtivo obviamente não vai ser bem recebido por quem criou o layout ou pela equipe do fórum em geral: pode ser normal alguém ter esse comportamento em um perfil de internet usado como diário pessoal dentro de uma rede social que não tem moderação ou em um bate-papo exclusivo a amizades, mas, em um espaço em comunidade com quem criou o layout, tal comportamento é inapropriado. Isto não significa que a opinião pessoal é proibida ou que há policiamento de tom envolvido, apenas que o local tem mais rigor sobre se a publicação da opinião é necessária e sobre como um argumento convincente pode ser construído caso ela seja considerada necessária.

A mesma coisa vale para regras determinando assuntos que requerem avisos de conteúdo ou que são proibidos, ou requerimentos de acessibilidade (como descrições em todes es áudios/imagens/vídeos): a questão não é necessariamente "a comunidade desaprova de todes que não se expressem somente de tais formas e sobre tais assuntos sob quaisquer circunstâncias", e sim que o propósito da comunidade é ser um espaço de socialização e/ou discussão (geralmente formado em torno de determinado assunto separado) acima de ser um espaço para pessoas falarem o que quiserem da forma que quiserem. A preocupação com o acesso mais amplo à comunidade é colocada acima da ilusão de autenticidade. E isto nem sempre é comunicado.

Quebrar o mito do everything app


É possível notar que falei de algumas coisas separadas aqui:

  • Locais para produzir textos ou outras formas de mídia que requerem espaço na tela;
  • Espaços para participar de discussões na internet;
  • Espaços para disseminar informações sobre eventos;
  • Espaços onde é possível realizar videoconferências.

Tem gente que adoraria um local só para tudo isso. Eu entendo a ideia por trás de ter menos contas para lidar, mas a busca pela minimização acaba por:

  1. Fortalecer iniciativas de grandes empresas, as quais tendem a ter mais recursos para desenvolver aplicativos/sites que cumprem múltiplas funções. É o objetivo das plataformas da Meta, do Discord, do X e do Google maximizar o tempo que as pessoas ficam em suas plataformas, então seus produtos tendem a incluir mais funções.
  2. Gerar o problema de "todos os ovos em uma única cesta": alguém só usa Discord para contatar sua comunidade? Bom, se ele for subitamente adquirido e fechado, já era sua comunidade. Mesma coisa se a conta da pessoa for banida.
  3. Impor inacessibilidade total a quem está de fora: uma pessoa que só usa WhatsApp não poderá ser contatada por alguém que não usa WhatsApp (por ter o aplicativo monitorado pela família ou ter sido banide, por exemplo).
  4. Fortalecer uma cultura de incuriosidade: se há um software novo de rede social, bate-papo ou afins, mesmo quando é fornecida uma razão para experimentá-lo, a reação tende a ser "só vou considerar usar quando muita gente migrar pra lá", e não "vou dar uma olhada em como é".
  5. Causar a falsa sensação de que todo mundo está naquele lugar. Muites com Discord acreditam que todes com determinado interesse têm conta no Discord, muites com Instagram acham que todas as pessoas usam Instagram diariamente e assim por diante. Esta impressão pode ser quebrada navegando por outros espaços.

Isso significa que eu defendo ter uma conta em cada serviço? Não. Mas acho que desenvolver espaços especializados é importante quando alguém ou alguma organização quer se dedicar a determinado tipo de informação. Quem realiza eventos frequentes deveria ter uma conta atualizada em alguma plataforma de eventos, quem quer organizar várias informações deveria considerar ter uma wiki ou um site, quem quer escrever textos deveria considerar uma conta em uma plataforma de blogs/histórias ou ter o próprio site. Além disso, é possível ir atrás de informações sobre uma plataforma antes de fazer uma conta nela, e apagar contas que não serão mais utilizadas.

Rejeitar o mito do "passado glorioso" (e de quem usa serviços alternativos só pensa nisso)


Múltiplos manifestos e textos opinativos sobre problemas modernos da internet — algoritmos de sugestão nocivos, IA generativa, criptomoedas, NFTs, inscrições pagas mensalmente, troca de sites e fóruns públicos por grupos de Discord e contas de redes sociais, etc. — valorizam a Web 1.0, a ideia de todes terem sites pessoais leves com código escrito manualmente, decisões de cores/fundos/layouts que devem ser esteticamente agradáveis primariamente por quem as construiu e assim por diante. E, tudo bem, não há problema se algumas pessoas optarem por estas decisões estéticas para seus espaços pessoais. Mas entendê-las como um ideal do que faz um site ser realmente pessoal/livre de influências corporativas cria expectativas desnecessárias do que significa ter um site próprio.

Tradução de um trecho daqui:

(...) coisas retrô são legais, todo mundo fica nostálgico. mas uma página inicial de repente rejeitando o acesso de dispositivos móveis não é algo a se almejar. (...) no meu tempo a gente tentava fazer nossas coisas o mais utilizáveis possível e estávamos construindo para 800x600 pixels, não 1920px. mínimo denominador comum e tudo mais.


Se uma pessoa decidindo que sua página deve ter um fundo neon e ser otimizada para monitores grandes e uso de mouse, outra pessoa decidindo que sua página deve ser otimizada para quem está com JavaScript ligado e não se importa em seus dados móveis estarem sendo utilizados para baixar três bibliotecas que compilam para JavaScript também só está exercendo a própria liberdade com o objetivo de atingir determinada estética. Ambas podem ser decisões irritantes para outras pessoas acessando a página.

Ferramentas de comunicação que não são e-mails, fóruns ou caixas de comentário também não devem ser descartadas como males modernos. Algumes colocam todas as redes sociais e plataformas de bate-papo no mesmo saco: tudo bem não ter interesse em utilizá-las, mas não há a necessidade de inferir que seus funcionamentos e suas culturas são todes iguais.

Eu sei que, muitas vezes, a valorização de uma forma de criar sites/existir na internet não significa a desvalorização de outras formas. Mas, ocasionalmente, eu percebo uma inferência de que todo site deveria estar tentando existir dentro de uma estética retrô e/ou sem JavaScript e/ou bibliotecas modernas, mesmo que ninguém reclame da implementação de ferramentas de acessibilidade.

De fato, acho que uma das formas que pessoas podem ser convencidas a fazer os próprios sites é demonstrar que um site não precisa nem se dobrar a um layout escrito por outra pessoa com o objetivo de funcionar para todos os assuntos e nem centralizar um sentimento de nostalgia que muitas das pessoas considerando ter o próprio site nem vão ter (por terem nascido nos anos 2000 e/ou não terem tido contato com a internet antes da centralização em redes sociais). E outro fator que pode ajudar é a demonstração de que há frameworks e outras ferramentas que podem ajudar quem não quer mexer com HTML/CSS/JS puro.

Esta questão também precisa ser aplicável aos assuntos considerados aceitáveis em espaços alternativos. Em múltiplos espaços, há a presunção de que pessoas precisam "ser elas mesmas" e que isso significa falar de acontecimentos banais em suas vidas pessoais e demonstrar que não são "monotemáticas", que não estão se limitando a um aspecto específico de suas identidades ou práticas em seus sites/blogs ou suas contas em redes sociais alternativas.

Não há nenhum problema em alguém ter apreço ou nostalgia por sites ou contas pessoais que cobrem uma variedade de assuntos aleatórios. Também não tem problema alguém preferir fazer isso. Mas, pessoalmente, como pessoa autista gerenciando vários projetos, não tenho vontade de gastar minha energia falando do que comi hoje/do que joguei hoje/da situação do transporte público ou fazendo paredes de imagens bonitinhas de todes es minhes jogos, séries e livros preferides, não importa o quanto outres achem que eu seria uma pessoa mais real ou autêntica se eu fizesse isso.

Pessoalmente, eu também adoraria ver mais projetos colaborativos, e plataformas que facilitem tais projetos. Escritas produzidas por um grupo ou que são voltadas para serem apreciadas por um público geral não são necessariamente produções rasas voltadas para adquirir capital. E, falando nisso...

Considerar necessidades de profissionais autônomes


Algumas pessoas que curam espaços alternativos ou providenciam serviços de hospedagem parecem ter em mente que pessoas normais possuem ou devem buscar um trabalho que ocorre em determinados horários e gera um determinado salário suficiente para suas necessidades e que fora disso estas pessoas estão livres para não realizar atividades que arrecadem dinheiro, e que qualquer pessoa "monetizando" algum aspecto da "internet livre" ou mesmo se importando com números de visitas ou interações está sendo desnecessariamente gananciosa.

Isto pode resultar em medidas como "não são permitidos anúncios de serviços comerciais neste serviço" e/ou "não é permitido pedir dinheiro por meio de algo publicado neste serviço". Ou mesmo em um ambiente onde pessoas que demonstram (ou aparentam demonstrar) preocupações com vendas ou popularidade são colocadas pelo resto da comunidade como "tóxicas" ou "contra o espírito da comunidade".

Porém, as pessoas mais necessitadas de espaços abertos onde podem mostrar/divulgar seus trabalhos sem inacessibilidade para quem não tem conta em determinado espaço são profissionais sexuais, artistas independentes e outres provedóries de serviços. Pessoas que não podem simplesmente ser contratadas por uma empresa que paga bem com base em currículos e entrevistas e considerar redes sociais e sites pessoais como hobbies completamente separados.

Eu sei que há limitações que podem ter que ser consideradas por conta de legislações vigentes ou regras de quem está providenciando algum dos computadores envolvidos (por exemplo, alguém que hospeda seus serviços usando Wasabi ou DigitalOcean, e não um servidor em sua própria casa). Isto é, nem todes têm a liberdade de dar aes sues usuáries liberdade total sobre o que podem publicar. Mas, para que exista uma internet separada das grandes empresas, há a necessidade de também existirem espaços para quem precisa ganhar dinheiro com seus trabalhos. E de não existirem julgamentos negativos sobre quem está "monetizando seu conteúdo" ou "agindo como influencer" por se preocuparem com retorno financeiro enquanto vivemos em uma sociedade capitalista.

Facilitar descobertas


Especialmente em um mundo onde alguém cria conta em uma rede social e é bombardeade com sugestões sem ter nem que pensar em como vai pesquisar pelo que lhe interessa, as ferramentas de descoberta da internet alternativa tendem a ser bem limitadas.

Diretórios de sites e blogs tendem a só incluir aqueles que são suficientemente construídos por conta própria, pessoais e minimalistas; redes sociais e fóruns independentes tendem a ser excluídes de diretórios de espaços alheios à centralização; etc. Eu acho que há lugar para estas granularidades, mas também acho que deveriam haver ferramentas que incluem recomendações mais robustas mesmo que "menos independentes" em relação a software e "menos pessoais" em relação aos seus conteúdos. Isto também ajudaria a ter uma variedade maior de pessoas e assuntos sendo representades.

E isto nem toca na questão de grande parte desta infraestrutura ser focada somente ou majoritariamente em recursos na língua inglesa. Este diretório é de sites brasileiros retrô, e... é isso. Não há uma lista por assunto de sites. Ok, é possível achar listas como "blogs brasileiros mais acessados" ou listas pessoais de alguém recomendando determinados sites ou blogs, mas nunca vi esforços comparáveis a ooh.directory ou indieblog.page focados em sites de língua portuguesa. Eu implementei um buscador no meu Raspberry Pi porque era o único jeito de ter um buscador alternativo que não retornasse somente resultados sobre a área da tecnologia e dentro da língua inglesa.

É importante incentivar pessoas a pesquisar pelo que elas se interessam, e não somente providenciar interesses populares, mas também é importante providenciar formas de pesquisar por tais interesses ou navegar até encontrá-los.

Que a preocupação com normalidade seja jogada fora


Em geral, pessoas com noções básicas acerca de discussões sobre justiça social entendem que o que é socialmente normal vem de ou tem associação com marcadores brancos, neurotípicos, ricos, hétero, cis, perissexo, conformistas de gênero, associados com homens e assim por diante. O livro Extra Bold contém trechos sobre até mesmo a questão do que significa ter um design "universal"/"neutro" tem um ponto de vista limitado:

Nos anos 1920, na Europa, designers defendiam que edifícios cúbicos, fontes sem serifa, imagens fotográficas e produtos funcionais podiam ser úteis e relevantes para pessoas de todas as nacionalidades e faixas de renda. Essas formas aparentemente neutras resistiam às ideologias nacionalistas e fascistas que colocavam uns grupos contra os outros. A despeito dos ideais igualitários do modernismo, porém, o conceito de soluções de design universais ou transnacionais presumiam um sujeito masculino, da Europa Ocidental.


É relevante apontar que isto não significa que tais padrões existem apenas por motivos mal intencionados ou que todas as pessoas que os adotam são más por fazerem isso. Novamente, se a renda de alguém depende do Instagram/TikTok/YouTube/Spotify/etc., minha intenção não é pressionar a pessoa a fechar suas contas em tais plataformas. As questões são:

  1. Plataformas que não têm o objetivo de gerar lucro não deveriam ser ignoradas ou alvos de chacota apenas por não terem ou quererem todes es usuáries possíveis;
  2. A aquisição de conhecimento básico necessário para domínio de plataformas alternativas não deve ser enxergada como um empecilho absoluto para quem tem interesse em tais plataformas, mesmo que nem todas as pessoas tenham tempo/paciência/capacidade de aprender tudo sobre elas;
  3. Existem, sim, empecilhos linguísticos, técnicos e sociais que dificultam a adoção de tecnologias mais alternativas, os quais, dependendo do caso, podem ser melhor trabalhados por pessoas envolvidas em divulgar tais tecnologias;
  4. Normas implícitas ou explícitas acerca de que tipos de expressões são alternativas o suficiente para serem levadas a sério fora de espaços corporativos também criam empecilhos técnicos e/ou sociais para que pessoas possam reduzir ou eliminar seu uso de plataformas convencionais.

Saiu de moda usar termos como compaixão, inclusão e problematização, então a substituição atual coloca ações como "normais", "cringe" ou "de quem não tem amizades" (ou outros eufemismos para "anormal" associados com comportamentos ou existências considerades ruins). Isso quando a preferência não é pela apropriação mal feita de AAVE (como no uso de "based" como adjetivo). Não é incomum falar sobre pessoas sendo cissexistas no Tumblr de formas como "nossa, pessoas cis precisam ser mais normais quando dividem espaços com pessoas trans", por exemplo.

Mas, por mais que querer normalizar que pessoas trans não sejam alienadas por perguntas ou atos inapropriados de pessoas cis seja um ótimo pensamento, o normal de sociedades eurocêntricas em geral é não entender bem como qualquer coisa funciona para uma pessoa trans: mesmo que uma pessoa normal não tenha a intenção de ser transmísica, sua incuriosidade normal fez com que ela nunca tivesse refletido antes sobre como funciona ter um gênero se ele não é definido pela genitália, sob quais circunstâncias faz sentido perguntar sobre informações como linguagem pessoal ou desenvolvimento corporal e assim por diante.

Por isso, eu não entendo a valorização da normalidade como coerente com a valorização da existência de diferentes modos de existir. Não acho que a palavra normal por si só precise ser evitada (assim como conceitos similares, como comum): mas quem é que é mais valorizade por "agir de forma normal", "frequentar espaços com gente normal", "usar tecnologias que pessoas normais conhecem", "usar palavras que pessoas normais conhecem" ou assim por diante? Eu, pessoa anticapitalista, neurodivergente, poliam, lichtgênero e afins, não consigo pensar na normalidade como algo que me inclui. E eu também não consigo pensar nela como inclusiva de minorias culturais, religiões minoritárias, pessoas fora do padrão de beleza vigente, alterumanidade e assim por diante. Prefiro estar nos espaços que valorizam a criatividade, a curiosidade e a diversidade em comparação aos que valorizam principalmente uma quantidade maior de pessoas que se orgulham em ser normais.


PS: Este texto, e quaisquer outros publicados em plataformas independentes, só serão bem espalhados se houver polinização cruzada.


Pensamentos sobre palavras, retóricas e intenção


Sinto que este texto está meio embaralhado demais pra servir como uma boa referência, mas espero poder expressar a importância de tirar certos termos do vocabulário quando pessoas marginalizadas dizem que eles machucam ou contém estigma.

Tipos de termos problemáticos


Algumas vezes, certos termos por si só são ofensivos, mesmo que o contexto do termo não seja. Tais termos podem ser ofensivos por trazerem conotações históricas de xingamentos, estigmas ou categorizações errôneas, ou por terem se tornado formas negativas de se referir a algo através dos tempos e terem eventualmente deixado de ser categorizações.

Por exemplo, se alguém se refere a pessoas que sentem atração pelo mesmo gênero como "praticantes do homossexualismo", mesmo que de forma positiva, ainda é possível que muita gente se sinta desconfortável.

Isso porque tal expressão dá a entender que orientações sexuais se referem apenas a práticas, faz referência ao uso da retórica de que heterodissidência é ou uma doença ou uma ideologia [1], e coloca todas as pessoas que sentem atração pelo mesmo gênero como "homossexuais", uma palavra que não se encaixa para pessoas que sentem atração por mais de um gênero e nem para as pessoas que só se identificam como lésbicas ou gays.

Em casos como este, é possível apenas trocar o termo utilizado para evitar o desconforto alheio.

Outras vezes, os termos são apenas um bônus dentro de uma retórica discriminatória. As razões para tais termos serem ofensivos podem ser as mesmas dos termos acima, mas há o problema adicional do contexto no qual estão inseridos.

Por exemplo, o pai de uma criança não a deixa assistir certo programa de TV por "conter homossexualismo". Neste caso, não importa se ele usasse palavras como "possui representação heterodissidente" ou "contém conteúdo LGBTQIAPN+" ou qualquer coisa do tipo; o problema é ele achar que isso de alguma forma é ruim para uma criança assistir.

De qualquer forma, existe também uma variação na intensidade do quanto cada termo é ofensivo. Ou seja, não é só porque um termo não é tão ruim quanto outro é que não é ofensivo.

Também existem termos que não vão ser ofensivos em determinadas situações, mas que vão ser em outras. Por exemplo, organismos assexuados (que não possuem diferenciação sexual dentro de sua espécie) existem, mas uma pessoa assexual não deve ser chamada de assexuada.

Sobre intenção


Algumas pessoas argumentariam que não há problema nenhum com o primeiro caso, só com o segundo.

O que eu digo em resposta é que o segundo caso é um problema pior do que o primeiro. Retórica sempre vai ser mais danosa do que o uso das "palavras erradas". Porém, não acho que isso signifique que nenhum esforço pode ser feito para que palavras com conotações opressivas saiam do vocabulário.

Pessoas que passaram por situações de abuso, violência ou apagamento por conta de certas palavras podem não se sentir confortáveis com certos termos em nenhum contexto.

Pessoas que sabem que certos termos não deveriam ser usados podem não se sentir seguras entre quem "não se importa com o termo certo porque o importante é entender a mensagem".

Pessoas que sabem das conotações negativas dos termos podem presumir que quem os usa não se importa em combater certo tipo de opressão/discriminação, ou até mesmo concorda com a conotação embutida no uso de tais termos.

Existe também a questão de palavras influenciarem que associações vão ser feitas com cada grupo. Por exemplo, o uso de palavras como homofobia, transfobia e xenofobia faz com que pessoas façam mais associações dessas discriminações com fobias que são neurodivergências, em comparação a discriminações como racismo e misoginia.

De qualquer forma, o uso de termos inadequados sempre lembra as pessoas que sabem que tais termos são inadequados de que certos tipos de opressão ainda são normalizados naquele espaço.

Sobre comunicação


Comunicação é um processo de troca de informações. Um lado precisa expressar algo que o outro lado vai entender.

Muitas vezes, comunicação não tem só a ver com a ideia do que está sendo dito. Uma série de sinais pode complementar a informação das palavras que estão sendo transmitidas. Muitas vezes, a expectativa de certos sinais pode arruinar a informação dada, ou fazer com que pessoas duvidem de sua veracidade, por mais que ela seja boa.

Isso pode afetar muita coisa, mas quero focar aqui em palavras. As palavras que alguém usa podem ser indicativas dos grupos sociais aonde a pessoa está inserida. Quando se trata de grupos marginalizados, é comum que pessoas que tenham mais contato com tais grupos saibam se referir a eles de forma menos ofensiva, enquanto pessoas sem contato nenhum podem nem saber que as palavras que usariam para se referirem a tais grupos são consideradas ofensivas ou inadequadas.

Quando uma pessoa usa "pessoas com probleminha" para se referir a pessoas neurodivergentes, isso dá a pessoas neurodivergentes um motivo para presumirem que esta pessoa possivelmente não as respeita como seres humanos. Talvez isso seja verdade, talvez não. Mas, justamente por capacitismo ser comum, se pessoas neurodivergentes quiserem se afastar e/ou não revelarem sua neurodivergência por essa pessoa, isso deve ser visto como um mecanismo de defesa, e não como "política da pureza" [2].

Sobre alcance


Quando alguém diz que certo termo é opressivo e não deve ser utilizado, o que a pessoa quer dizer é que, ou naquele contexto, ou em qualquer contexto, certo termo carrega um estigma relacionado a discriminação.

Para algumas pessoas, isso pode parecer valorização de linguagem politicamente correta acima da retórica. Porém, só porque certos atos discriminatórios são piores, não significa que outras coisas não contribuem com discriminação.

Quando é só a linguagem que está errada, é só isso que deveria melhorar.

Quando há mais coisas erradas, com certeza há mais coisas a criticar, mas isso não significa que nenhuma crítica pode ser feita à linguagem usada.

Às vezes, é mais fácil criticar palavras sendo usadas, porque geralmente não é necessária muita explicação ao redor disso.

Por exemplo, pode ser muito mais fácil escrever uma postagem dizendo "não usem [palavra] porque literalmente significa [coisa ruim associada a grupo marginalizado]" do que uma postagem que pede para que pessoas reflitam sobre hábitos mais profundos ou histórias sangrentas ou dados negativos de pesquisas.

Em boa parte dos casos, há menos necessidade de reflexão sobre mudanças no vocabulário do que sobre outras coisas, e há menos pesquisa envolvida em expressar o motivo de uma palavra ser ruim do que em expressar o motivo de outras coisas aparentemente inocentes serem ruins.

Porém, tem vezes que é muito difícil criticar palavras sendo usadas, porque tais palavras são consideradas presentes demais no vocabulário comum para mudar o hábito. Por exemplo, por mais que imbecil signifique "sem inteligência" ou "alguém com atraso mental", é comum justificarem o uso da palavra dizendo que em "suas opiniões", o termo só significa algo como ruim/chate/irritante.

É estressante o quanto é fácil ler e fazer postagens sobre o quanto certas palavras são ruins, só para ver pessoas defendendo arduamente o uso de palavras que poderiam ser substituídas com pouca dificuldade. E, sim, existem casos de pessoas que esquecem fácil de certas coisas ou que já possuem dificuldades em achar palavras, mas isso não se aplica na maior parte das defesas.

A eliminação de termos problemáticos por pessoas que podem escolher suas palavras com mais cuidado irá facilitar com que outras pessoas nem precisem refletir tanto sobre como vão substituir alguma palavra já "enraizada".

Sobre a utilização das "palavras certas" enquanto discriminação é perpetuada


Tanto pessoas bem intencionadas que não entendem que o que estão fazendo quanto pessoas mal intencionadas que acham que podem falar o que quiser desde que usem as palavras certas podem disfarçar retórica opressiva com linguagem geralmente usada em espaços antiopressão. E isso é um problema.

Por exemplo, perguntar se certa pessoa não-binária foi designada como homem ou como mulher para assim categorizar tal pessoa em certos estereótipos ainda é cissexista, mesmo que uma pergunta como "você nasceu homem ou mulher" seja ainda mais cissexista.

A conscientização sobre assuntos de forma mais profunda do que termos usados é importante. É importantíssimo saber que a medição de inteligência é opressiva, que sexos não deveriam ser associados a gêneros, que normas de gênero são socialmente construídas e não precisam ser obedecidas por pessoas de qualquer identidade de gênero, que opressões não acabaram século passado, que colonialismo ainda afeta mesmo povos que supostamente ficaram independentes de seus respectivos países colonizadores, que qualquer pessoa merece acesso a ar, saúde, alimentação e moradia independentemente de seu emprego ou da sua capacidade de produzir, que o capitalismo é inerentemente opressivo, etc.

Quando alguém não sabe disso, não é culpa de pessoas que pedem para parar de usar certas palavras e que supostamente não vão além disso (geralmente esse tipo de ativista superficial nem existe). Isso é culpa de uma sociedade que incentiva a reprodução de uma série de ideias opressivas, o que inclui tanto a retórica discriminatória como a normalização de palavras estigmatizadas.

Sobre ressignificação


Ressignificação significa que alguém, ou um grupo, como parte de um grupo marginalizado afetado por uma palavra estigmatizada, usa aquele termo para se descrever de forma positiva.

Por exemplo, quando alguém com atração por mais de um gênero usa bissex para si, esta pessoa está usando um termo usado para descrever mídia pornográfica que contém uma pessoa transando com pessoas de dois outros gêneros ao mesmo tempo como uma parte de sua identidade, ao invés de como um termo que promove a fetichização de identidades multi.

Isso não significa que bissex seja um termo adequado para se referir a qualquer pessoa que não se identifique especificamente com este termo.

Isso também não significa que pessoas bi possam usar bissex como xingamento contra outras pessoas bi (por serem, por exemplo, não-monogâmicas). Isso não é uma ressignificação, isso é apenas contribuir com o significado original da palavra.

Alguns termos foram mais amplamente ressignificados, como gay. Hoje em dia, a maioria não vê gay como um xingamento que perpetua estigma contra pessoas heterodissidentes, apenas como uma identidade. (Ainda assim, é possível que o termo seja usado como xingamento, mas neste caso ele só tem a conotação de associar heterodissidência com algo ruim por conta do contexto.)

Portanto, é importante também ver o contexto onde a palavra estigmatizada está sendo usada antes de, por exemplo, acusar a pessoa de estar perpetuando discriminação. Mesmo assim, o fato de uma pessoa ser afetada por uma palavra não lhe dá o direito de xingar outras com ela e dizer que tudo bem ela usar a palavra porque "está ressignificando" (se está usando como algo negativo, não está).

Links



Notas


[1] O sufixo -ismo é associado com ideologias (como marxismo ou liberalismo). Além disso, o termo homossexualismo era usado em literatura médica para categorizar pessoas heterodissidentes (ou ao menos parte delas).

[2] O termo política da pureza é usado para criticar grupos que tentam excluir qualquer outro que não seja puro o suficiente. É um termo versátil que já foi usado em várias situações diferentes, mas é comum usá-lo para comunidades que se dizem progressivas que atacam qualquer pessoa ou coisa que não seja


USB Live Persistence


En esta entrada vamos a preparar un stick USB con una distribución live de Debian GNU/Linux y la ayuda de docker para ejecutar el contenedor, y así no manchar nuestro sistema de otros paquetes.

Abrimos una consola y ejecutamos los siguientes comandos, teniendo en cuenta la imagen de Debian que queremos cargar y el dispositivo del USB:

$ git clone https://git.manalejandro.com/ale/snippets && cd snippets
$ docker buildx build -t persistent-usb -f docker/Dockerfile-persistent-usb .
$ docker run --privileged --rm persistent-usb https://cdimage.debian.org/debian-cd/current-live/amd64/iso-hybrid/debian-live-13.6.0-amd64-mate.iso /dev/sdb

Una vez terminado el script tendremos preparado nuestro USB Live con persistencia que podremos usar en casi cualquier ordenador arrancando directamente desde el dispositivo USB.

Hasta la siguiente entrada 👋

Growth of the Fediverse (20260301)


Monthly Active Users^[1]^:

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Pixelfed11951912023911530912048577178111147234134338813
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Friendica26322618263714601297174343954734
Forgejo1141211245103863706151168
Funkwhale2672662702582182274801114
Flohmarkt2118333330040
Fediverse1008431101176010131849398308250148965111245057

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Software-1 Day[1D]-1 Week[6D]-1 Month[30D]-3 Months[90D]-6 Months[180D]-1 Year[365D]-All-Time Maximum
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Mbin-14-173569-72-106-3159
Threadiverse-9791841817897214663-1995
Mastodon-1203-1103246719110858102782-125786-1949522
Pixelfed-7204210-966423418372-114615-219294
Peertube-1673261248614490178946099-167
Loops-228-2236656119-210860-21733
Bookwyrm-43-46-2254-1242-1399-5961-7866
Friendica14-511721335889-1763-2102
Forgejo-7-10-396-272-256-501-1054
Funkwhale1-394940-213-847
Flohmarkt3-12-121800-19
Fediverse-3329-475368601183417111920-236626

Change (%)^[1]^:

Software-1 Day[1D]-1 Week[6D]-1 Month[30D]-3 Months[90D]-6 Months[180D]-1 Year[365D]-All-Time Maximum
Piefed0.1%11.2%166.1%278.6%274.9%1932.6%0.0%
Lemmy-2.3%3.2%11.9%14.5%0.5%-16.1%-44.3%
Mbin-1.7%-2.1%4.5%9.3%-8.2%-11.6%-79.6%
Threadiverse-2.0%4.0%20.8%25.8%10.9%-4.0%
Mastodon-0.2%-1.4%6.3%16.4%15.0%-13.8%-71.2%
Pixelfed-0.6%3.7%-0.8%54.9%7.5%-49.0%-64.7%
Peertube-0.4%0.8%43.5%54.3%76.8%17.4%-0.4%
Loops-2.7%-0.3%82.9%310.8%-72.3%0.0%-72.9%
Bookwyrm-2.7%-2.9%-59.1%-44.3%-47.2%-79.2%-83.4%
Friendica0.5%-0.2%80.3%102.9%51.0%-40.1%-44.4%
Forgejo-5.8%-8.1%-77.6%-70.5%-69.2%-81.5%-90.2%
Funkwhale0.4%-1.1%3.5%22.5%17.6%-44.4%-76.0%
Flohmarkt16.7%-36.4%-36.4%600.0%0.0%0.0%-47.5%
Fediverse-0.3%-0.5%7.3%22.2%12.5%-19.0%

Tracker Comparison^[1,2]^:

SoftwareFediverse-Observer^[1]^FediDB ^[2]^
Piefed61796196
Lemmy4041849143
Mbin8081418
Threadiverse4740556757
Mastodon7876411026747
Pixelfed119519129301
Peertube4118138969
Loops80887997
Bookwyrm15633818
Friendica26323293
Forgejo1141421
Funkwhale267761
Fediverse10084311269064

Notes:

  1. Threadiverse is Piefed, Lemmy, and Mbin. Fediverse only accounts for listed software [12], not the other [117] software tracked by Fediverse-Observer.
  2. Fediverse-Observer provides daily MAU back to 20221130. FediDB only provides a current snapshot (snapshot within the last 15 minutes, no time series data) and doesn't track all software.
  3. Not sure why the two sources have different counts. A quick search of Lemmy showed they found all the same large servers (1 FediDB duplicate found: lemmygrad.ml & lemmygrad.com, 679 & 651 MAU), but got significantly different total MAU counts somehow? Fediverse-Observer MAU appears correct (at least with regards to Lemmy).
  4. "Last Week" is actually [6D]ays ago not the usual [7D]ays because there was a server detection/duplication issue that happened [7D]ays ago and was corrected [6D]ays ago.
  5. Weirdly Loops has a ~3 week gap in data about a year ago.

Takeaways:

  • Positive Growth (every day last week): Piefed
  • Lemmy's data has bounced up and down in the last week. May be due to the NSFW server shutting down, then coming back as an archive, and then shutting down again?
  • Loops may have reached its local peak and people are starting to leave again 🙁
  • Seems like a middling, slightly negative week for the Fediverse.

Edit:

  • Looking through mbin's server list it looks like FediDB has a duplicate (Tardigram alpha (167 MAU) & mbin.level5.dev (173 MAU)), while Fediverse-Observer is missing 2 servers (Tardigram alpha (167 MAU) & thebrainbin.org (39 MAU)). So, potentially mbin is at ~1000 MAU. Even based on FediDB list of mbin servers (including the duplicate), it only adds up to 1146 MAU (not 1418). I have no idea how FediDB is getting their MAU count.
This entry was edited (Sunday, March 1, 2026, 2:25 PM)

Bazzite rebasing question


I rebased my laptop install to bazzite-dx yesterday and for some reason, the stable branch installed a testing image (testing-44.20260802) instead of the latest stable image (stable-44.20260802). I pinned to the latest stable for now but does anyone know why bazzite rebase helper would do this?

Edit: I just checked the release info again since that was last night for me, and it just installed the same image again. Rebasing via rpm-ostree pulls the same image too. I’m gonna rebase back to normal bazzite for now and check to see if this also happened to my desktop I switched a couple weeks ago

Edit 2: Yep, my desktop was also on a test image. I wouldn’t have even thought to check if the test image wasn’t locking up my laptop. Until now bazzite has been so stable for me, now I’m wishing I left my desktop on fedora as a backup in case something like that happens again

This entry was edited (Tuesday, August 4, 2026, 8:15 PM)
in reply to ItsPlasmaSir

Oh, I see. From the bug reports posted, it looks like the -dx image is based on the bazzite deck 44 image for some reason, which isn't out of testing yet.~~ If that's deliberate it's an odd choice~~. The new deck 44 image should be updated to stable soon.

edit: Further reading indicates it's based on the deck image so that they don't have to maintain two different dx versions.

This entry was edited (yesterday, 12:14 AM)

F7 key on 67% keyboard


SOLVED: i used the simulate input action on opendeck and set it to f7. yes i have a streamdeck

so i use a program where you need to press f7 and you cant change it, but i only have a 67% keyboard and the layout i have selected in my keyboard setting doesnt seem to have fn on any of my keys so pls help

EDIT: just so you guys know i have a streamdeck that i can use but idrk how to configure a button to be f7

de:kde
distro:endeavouros
keyboard: custom kbd67 lite

This entry was edited (yesterday, 10:26 AM)

Introducing Nextcloud Hub 26 Spring: Built together, designed for the future 🚀


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What’s new in Nextcloud Hub 26 Spring:

💫 Refined design, optimized performance
💪 Empowering developers with an open platform
✏️ Your choice: Nextcloud Office powered by Collabora or Euro-Office
💌 Delegate calendars, meetings and mail boxes for better collaboration
📈 Gantt charts, dependencies & more in Nextcloud Deck
🧠 More agency: let the Assistant work for you across files, emails, forms, and more
🧩 Pexip, Matrix, and more updates in integrations

... and many more improvements in all apps!

Read more about Nextcloud Hub 26 Spring in the release blog post: nextcloud.com/blog/nextcloud-h…

Watch on YouTube: youtube.com/live/mRZL1gYu4dQ

Experience Nextcloud Hub 26 Spring with a live demo on June 18: nextcloud.com/blog/event/nextc…

Experience the brand new Nextcloud Hub — get it now: nextcloud.com/instant-trial/

Chapters:
00:00 10th anniversary interview with Frank Karlitschek
13:00 Introducing Nextcloud Hub 26 Spring
13:17 Nextcloud Talk: chat and meetings
16:16 Nextcloud Files: File sync & share
18:26 Design improvements
21:55 Nextcloud Governance
23:32 Nextcloud Groupware: email, calendars and contacts
23:58 Email and calendar delegation
25:57 Interoperability
27:23 Project management with Nextcloud Deck
29:46 Nextcloud Office powered by Collabora Online
31:01 AI chat sidebar
33:55 Templates
35:05 Nextcloud Office powered by Euro-Office
36:46 Nextcloud Productivity: Nextcloud Text, Collectives and more
38:23 Nextcloud Flow: Automation tools
39:53 Improvements in Nextcloud Tables
44:00 Nextcloud Assistant and AI
44:17 Ready for EU AI Act
46:10 New AI tools
46:59 10th anniversary interview with co-founders
01:08:22 Nextcloud Platform: App Store, API and apps
01:12:09 Empowering developers: insights from our DevRel
01:14:46 Dev tools and API
01:17:32 Nextcloud ISV program introduction
01:19:45 Nextcloud Hub 26 Spring: Summary
01:20:11 Closing remarks and how to get started
01:23:06 Behind-the-scenes & community credits

Featuring:

Dr. Constanze Kurz — Computer scientist, author, and spokeswoman, Chaos
Computer Club (CCC)
Frank Karlitschek — CEO and Founder, Nextcloud
Thorsten Behrens — Managing Director, Collabora Productivity Germany
Jan C. Borchardt — Co-Founder and Design Team Lead, Nextcloud
Jos Poortvliet — Co-Founder and Vice President Communications, Nextcloud
Arthur Schiwon — Co-Founder and Productivity Team Lead, Nextcloud
Kim Pohlmann — Senior Communications Manager, Nextcloud
Iva Horn — Software Engineer, Nextcloud
Anna Larch Developer Relations, Nextcloud

#Nextcloud #NextcloudHub #Privacy #Collaboration #Productivity #AI #LocalAI #GovTech #Security #PrivateCloud #Digitalization #DigitalSovereignty

This entry was edited (Tuesday, August 4, 2026, 6:23 PM)

Sovereign office suite built in Europe: Meet Nextcloud Office powered by Euro-Office


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Meet the sovereign office suite made in Europe.

Nextcloud Office powered by Euro-Office comes with editors for text documents, spreadsheets, presentations, and PDF files. What makes it stand out is its client-centric architecture. Most of the processing is done on the user’s device, which reduces server load and increases the moment-to-moment performance while editing.

Euro-Office works both on mobile devices and in the browser, and lets you use Nextcloud Assistant features right in the editors.

With the Euro-Office app, we're also introducing a new overview of recent document and templates.

Want to learn more?

Visit the Euro-Office page on our website: 👉 nextcloud.com/office/

For an overview of all office suites available for Nextcloud Office, read an article in our blog: 👉 nextcloud.com/blog/nextcloud-o…

▶️ Watch the full Nextcloud Hub 26 Spring launch: peertube.nextcloud.com/w/3PS6L…

👀 Prefer reading? Discover our release blog: nextcloud.com/blog/nextcloud-h…

This entry was edited (Tuesday, August 4, 2026, 6:23 PM)

Bluetooth problems on Pop_OS!


cross-posted from: sh.itjust.works/post/64544544

Hi everyone!

I've been a happy Gnome and Fedora Silverblue on a Surface Go user but I'm always happy to learn about new DE's in Linux. After trying and hating KDE on my Steam Deck desktop mode, I wanted to see if Cosmic would be the perfect middleground and installed it on my wife old MacBook Pro 2012 which was previously running Fedora Workstation flawlessly.

After some light struggles with Ventoy, I managed to install Pop_OS! 24.04 and everything was working except the wifi, which is a known issue with these Macs.

The bluetooth for my Surface Modern Mobile Mouse worked fine at that moment, but as soon as I rebooted afther the necessary commands to get the wifi card working ( sudo apt install firmware-b43-installer , sudo apt install linux-firmware , sudo reboot ), the mouse got disconnected.

I tried many things, installed blueman and the mouse is seen, but as soon as I connect to it, it disconnect.

As I wanted to isolate the issue, I uninstalled the wifi card ( sudo apt remove firmware-b43-installer, sudo reboot) and then had a perfectly working bluetooth mouse.

So for now, I have to choose between my bluetooth mouse and wifi, and both are important features.

Thanks for your help!

Othewise, the experience is good even if a bit buggy/feature lacking with these problems:

  • can't configure the f3 key to automatically tile windows on a workspace
  • being force to use 4 fingers gesture to move between workspaces instead of 3 on Gnome (muscle memory). It's difficult for me and my big hands to lay for fingers on the trackpad and I prefer it to the keyboard shortcut which I can't configure to be the same as in Gnome
  • no ability to force an application to automatically be moved on a certain workspace (on Gnome I have 6 applications opening at startup and each one is going on its own workspace with the auto move extension)


Edit: sudo apt install broadcom-sta-dkms worked so huge thanks to Anon5621!

This entry was edited (Tuesday, August 4, 2026, 4:19 PM)

コモンズの悲劇、コモンズの喜劇、アンチコモンズの悲劇、フリーライダーの寓話


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クリアコード20周年記念Meatupでちらっと書いたのだけど、三分ほどの短いお祝いトークをして来ました。いわゆるスピーチではなく、パソコンでプレゼンを大画面に映すやつ。

やはりクリアコードさんと言えば、ということでフリーソフトウェアについて何か話したいなあと思って本を一冊読みました。

そこで西川開『知識コモンズとは何か』を、イベントの一週間ほど前に買いました。何とか、イベント当日の朝まで掛けて読んだのですが、「お祝いの話に絡められなさそう……」という結論になったので、これとは関係のない話をしました。そこで、ここで紹介して供養したいと思います。

キャッチーっぽい響きのある話をいくつか紹介します。

コモンズの悲劇(P. 11)


この本は知識コモンズについての本なのですが、前史として「伝統的コモンズ」、つまり牧草や水と言った物質的実態のあるコモンズの研究についても調査しています。その際に「コモンズの悲劇」というエピソードがありました。有名なので知っている人もいると思います。1968年にハーディンという人が提唱した、コモンズについての悲劇的なシナリオです。

ある牧草地が、誰でも使用可能な状態だとします。この牧草地にあまりに沢山の牛が放たれると牧草が足りなくなり、再生産される牧草の量も減ってしまいます。従って、牧草地を維持するには、放牧する牛の数を一定に保つ必要があります。

ここで、ある一人の農民の視点で考えると、牛を一頭増やすとその分の利益を得ることができます。一方で損失である牧草の減少は、放牧地を使う全員に分散されます。すると、牛を増やすことが合理的な行動となり、みんながそのように行動して牧草は尽き、その牧草地は枯れ果ててしまう、というシナリオです。

こうしたことがあるので、コモンズは私有財産にして管理を委ねるか公有財産として政府などが管理するしかない、というのがハーディンの結論です。

これは後にオストロムによって反例が挙げられます。ハーディンの言うシナリオも、一方でうまく管理されている反例もある(オストロムは反例に共通する特徴を挙げてもいる)、どちらもあるし、多分ハーディンのいう結末を辿ることが多い、ということだと推測しています。

オストロムの話も面白いので本を読んだり検索したりしてみてください。コモンズ研究でノーベル経済学賞を獲った人でもあります。

コモンズの喜劇(P. 35)


コモンズの悲劇をもじったコモンズの喜劇というシナリオも紹介されています。コモンズの悲劇は皆が使うことでコモンズが崩壊するというシナリオでしたが、コモンズの喜劇は皆が使うほど全体が利益を得るというシナリオで、1986年にローズが提唱しました。インターネットは定義によってあるとも無いとも言える頃。ウェブはまだ無い。

コモンズの喜劇は道路や水路、公共広場などを対象としたシナリオで、これらは商業活動の基盤になるので、多くの人が使えるようにしておくことで商業活動が活発化し、全体に利益がもたらされる、と説明されています。道路を使うということは、荷物や人の移動があるということで、そうしたことが起これば起こるほどお金も動く、ということだと思います。

コモンズの悲劇ではコモンズについて権限を持って管理する人がいない状態が崩壊を招いていましたが、コモンズの喜劇では誰かしらが利用を制限する権限を持っている人がいる、というのが特徴です。野放図ではないわけです。

ネットワーク効果が背景にあるらしく、そう言われると現代の僕達にはよく分かりますね。

これらのコモンズは、コモンズの悲劇で扱われた伝統的コモンズと区別してオープンコモンズと呼ばれます。そして、知識コモンズもその一種とされています。これが知識コモンズの理論的出発点となっているのです。

アンチコモンズの悲劇(P. 43)


アンチコモンズの悲劇は、ある資源について複数人が所有権を持っている状況を描きます。ヘラーが1998年に提起しています。

この時、互いが互いの効率的な利用を妨げることができるという権利の持ち方があり得ます。そうすると、権利を束ねるのに膨大なコストが掛かってしまい、それは行われず、結果、その資源は使われなくなる、というシナリオです。

本を復刊したい時に、著者・挿絵画家・デザイナーのいずれかが連絡が付かず権利処理できない、というのもアンチコモンズの悲劇と言えるんですかね。意図して妨害しているわけではないけど。

フリーライダーの寓話(P. 70)


フリーライダーの寓話は、知的資源の管理制度に関する通説を、2013年にフリッシュマンが定式化した物だそうです。知識コモンズ版の「コモンズの悲劇」と言えます。

知識資源は、誰かが「使用」しても減らないし、その使用を妨げることも難しい、という性質から、第三者がフリーライドするのが容易です。そうすると、その知識資源の生産者が支払ったコストを補填できず、インセンティブが失われ、知識資源があまり生産されなくなる、というシナリオです。

当時はフリーライダーの寓話を回避する方法の通説が、やはりコモンズの悲劇でハーディンが言ったように私的所有か公的所有か、だったそうです。つまり、知的財産権を設定することで簡単にフリーライドを排除できるようにするか、助成金で生産したり公的機関が生産するか。

そして、オストロムが伝統的コモンズでしたように、知識コモンズでもこのフリーライダーの寓話の反例が挙げられています。詳しくは本を読むか、直接フリッシュマンの論文を読んでみてください。


内容的には同列に並べるような物でもない物もあるけど、幾つかの「お話」を紹介してみました。

プログラムのソースコード(特にフリーソフトウェア)への関心から読んだ本でしたが、フリーライダーの寓話なんかは正に、ですね。そのようにして悲劇を迎えるFLOSSはあるし、そんな中でもうまくやっている物もある。

トークが三分なので本に書かれているような込み入った話をする時間が無いという理由もありましたが、何より「うまくやろうと実際に行動している」というクリアコードさんに、こういう分析手法の観点から何か言ってもなあ……という気持ちにもなって見送ったのでした。


クリアコード20周年記念Meatup


クリアコード20周年記念Meatupに行って来ました。

クリアコードの方とクリアコードファン(自認)が集まるイベントで、クリアコードのkouさんが参加者の一人一人を紹介していくという狂った始まり方でした。30人ぐらいいるんですが……。

でも、色んな人が集まっているのを実感できて楽しかった。「あの人多分知っている人の筈だけど十年ぐらい会っていないので自信が無い……」みたいな人にも確信を持てたのでそれもよかった。一時間越えでしたけどね。

その後、クリアコードの方の、年表アプリケーションの自慢会、それから参加者のお祝いトーク(僕も簡単にトークしました)を経て懇親会へ。

昔Shibuya Rubyist Lunchでよくランチを一緒に取ったbashさんに久し振りに会えました。懐かしい。今はiPhoneの中でRubyを動かすみたいなことをやっているらしく面白かった。最近whispercpp gemの為にCのビルドについて調べたりしていたのが理解に役立ったので嬉しい。

naitohさんとも話しました。MemoryViewの話を振ってくれたので、説明の為に「Rubyの機能なんですけど、Ruby使ってますか?」みたいなことを聞いてしまった。誰に聞いてんだよ。いや勿論naitohさんのことは知っていました(REXMLをStringScannerで実装し直した人)けど、顔を見たことが無かったので……。

naitohさんが「Rubyのコアにも Numo::NArray みたいなのがあったらよくないですか」と言っていて、実はぴんと来ていなくて的外れな話をしてしまった。今思い返すと、「大雑把には標準添付の Matrix がCで実装されて計算も速い、みたいな感じだといいんですかね」と返せばよかった気がする。naitohさんは計算に興味があって、僕は機械学習モデルとの受け渡しばっかりだからトランスファーに興味があって、そこで食い違ってしまった。思い込みが激しいのであまり人の話を汲み取れないことがあるのです。標準添付の Matrix は色んなオブジェクトを持てるけど、 Array#bsearch がソート済みの配列を前提にしているように、全要素が同じ型であることを前提にする方向でいけるのかも知れない。そしてそれがMemoryView対応したら最高ですね。

kouさんには単著『Ruby de XML』にサインを頂きました。名前の所を二重線で消しているのが面白い(名誉のために詳細は伏せます)。

帰り際にクリアコードでGroongaの開発をしている堀本さんと少しだけ話しました。なんと、僕がkouさんに言われて書いた『Groongaではじめる全文検索』という本がGroongaとの出会いだったそうです。kouさんの目論見が当たったわけです。すごい。

楽しかった。20周年おめでとうございます。「続けることが大事」。


in reply to 北市真

オストロについて詳しくはこちらをどうぞ:備蓄が尽きたその後——オストロムが教える、タダ乗りされないコミュニティの作り方

GNOME Boxes Preparing To Deliver Much Improved Virtualization Experience


GNOME Boxes lead developer Felipe Borges has been overhauling the application with a major rewrite and today announced the new beta release. GNOME Boxes has migrated to using the GTK4 toolkit and libadwaita. The new GNOME Boxes code can also handle installing Microsoft Windows 11 now without needing any manual workarounds for Secure Boot or TPM requirements.

The new GNOME Boxes code also introduces a VSOCK device for accessing VM contexts and other improvements. With the revamped GNOME Boxes, it's also shifting to a Flatpak-first and only model for distributing of new GNOME Boxes releases.